quinta-feira, 22 de março de 2007

BRAVA DANÇA DOS "MALDITOS"

Confesso que nunca tinha ligado muito aos Heróis do Mar. Confesso, também, que cometi o pecado de os ter visto uma vez, ainda era muito míudo, no mesmo espectáculo em que actuou o Marco Paulo (Aveiro, por volta de 1984-85)...

Sempre os respeitei, reconheci-lhes o pioneirismo e o legado de grandes canções que ainda hoje fazem muita gente (incluindo aqueles que nem em projecto estavam quando a banda se extinguiu!!!) cantar, dançar e enlouquecer por tanta semana académica e não só.

Os anos passaram e, como a minha sábia mãe diz, "só os burros não mudam"...

Hoje em dia tento ver um pouco para além da música...gosto de analisar o ambiente em que foi criada, as emoções e reacções da imediatez que suscitaram, todo um pano de fundo que nos faz redescobrir, sempre, um pouco mais da vida eterna de uma grande canção ou grupo.

Na realidade, depois de ontem ter ido ao cinema, empurrado pela curiosidade, assistir ao filme/documentário "BRAVA DANÇA", de Jorge Pires e José Pinheiro, estreado na última semana, saí da sala de cinema ( com pipocas por todo o lado) bastante pensativo:

Realmente, os HERÓIS DO MAR tiveram o mérito e o azar de nascer em Portugal.

Nascidos do turbilhão pós-revolucionário, do ambiente de desorientação e de cidade sitiada, os elementos, que viriam a dar forma à mítica banda, encontraram-se nesta fase, com ideias que borbulhavam por toda a líbido própria dos 20 anos, com o espírito de tentar fazer algo que (lhes) tivesse sentido...
Realmente, após a aparição em 1980/81 da banda, as conotações de que foram alvo mostraram a falta de preparação com que Portugal se debatia para enfrentar estas (e outras) novas tendências.

Uma época ainda em sangue e ferida...um Portugal castrado durante meio século...tudo era política ou então tudo tinha conotação com a política... Os HERÓIS vêm de uma elite culta, artística em que, para eles, falar de política, religião, história ou mito era normal. Mas não para uma sociedade renascida de uma Fénix ainda depenada.

É engraçado o intuito da idiossincracia da banda: mistura (explosiva) entre POP, tradição e marcas culturais. O nome retirado do próprio hino, a utilização de fardas, tais como as milícias juvenis durante os anos 30 e 40, de símbolos identificativos da História, Cultura e "marca Portugal" e lirismo de um cariz quase épico-dramático levavam ao facilitismo de uma conotação da banda com a ideologia fascista, tendo sido apelidados como reaccionários e neo-fascistas saudosistas.

Por isso digo que os HERÓIS DO MAR tiveram o mérito e azar de nascer em Portugal...um país que, se calhar, nunca os compreendeu e, sejamos realistas, eles tiveram de se adaptar a isso. Mais seria difícil, não dizendo eu impossível. O azar de nascerem em Portugal, num país diminuído culturalmente, pouco dado à inovação e tendências mais "heterodoxas". Mas felizmente, ao contrário de muitas outras bandas (não só portuguesas), os HERÓIS souberam ver a época em que viveram e souberam, acima de tudo, "morrer heróicamente quando a praia já não tinha mais espaço para estender a toalha"... e isso é de HERÓI!!!!

Como viram, não contei aqui nada sobre o filme em si pois aconselho-o vivamente. Apenas digo que vão sentir nostalgia, ou tristeza, por nunca terem visto esta banda a actuar. Para a eternidade, fica a sua música e irreverência: "Brava dança dos heróis" (épica e grandiosa), "Saudade", "Fado" (das melhores canções escritas em Português de sempre), "Supersticioso" e os êxitos da pista de dança, "Amor" e "Paixão". Tudo isto reunido num só disco lançado, recentemente, que reúne os 16 melhores temas destes Heróis Amaldiçoados (que eu adquiri logo no dia seguinte...)

Para terminar, numa época em que se adora ir "ressuscitar" bandas e artistas reformados, penso que os ex-membros da banda não deverão, até ver, dar esse prazer a tantos milhares...É assim...

"SÃO COISAS DO MUNDO, SÓ SE PODEM VER AO LONGE!!!" (in Fado, Heróis do Mar)


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