segunda-feira, 9 de maio de 2011

portugal e o futuro no dia da europa

José Sócrates é hoje arrasado na edição do Financial Times.
Na origem deste caso está a forma cor-de-rosa com que o (ainda) Primeiro-Ministro anunciou o acordo recentemente feito com a tão falada troika.
Na opinião de Wolfgang Münchau, colunista do prestigiado jornal britânico, o pacote de assistência financeira ao nosso país revela tudo menos padrões primaveris: cortes cegos em pensões, congelamento de salários na função pública, agravamento desmedido da carga fiscal. 
As consequências serão terríveis pois não se vislumbra neste acordo um horizonte de crescimento económico para o país.

O FMI continua a revelar o mesmo menu: cortes, privatizar e retirar apoios sociais. A instituição, criada em 1944 de forma a evitar uma nova Grande Depressão, continua a agir de forma intocável e impune.
Este pacote de assistência financeira (que muitos continuam a apelidar de "ajuda") tem tudo menos espírito franciscano.
Acredito que, num país civilizado e organizado, estes programas financeiros poderiam resultar. Mas, em Portugal, colocarei as minhas dúvidas...

Importante terá sido o apelo de Cavaco Silva na comunicação feita recentemente ao país: a sociedade terá de mudar os seus hábitos. Se o Estado tem papel de relevo na situação a que chegámos, menos culpa não terá a sociedade civil: despesismo e satisfação em consumir aquilo que não é estritamente necessário. A sociedade da chiclete, consumista e gerada por padrões e níveis de consumo, atingiu a ruptura. 

Para isto, o Presidente da República fala no consumo de produtos portugueses, ao invés de consumir o que é feito lá fora.
A pergunta é esta: como poderemos nós concorrer contra economias que crescem baseadas na atroz exploração laboral (factor determinante para a entrada de produtos a preços que arrasam qualquer concorrência)?

Outra questão: ao abrigo das leis comunitárias, Portugal não poderá elaborar uma pauta aduaneira (de contornos quase mercantilistas) que defenda o que cá se faz. Se estamos na UE (e se a ideia da UE é cooperação e livre-concorrência), como será isto possível?

Por último, bem sei que a competitividade deverá nascer nas empresas. Mas quem será o louco que se aventura no mercado português, sob o risco de destroçar por completo o pouco que vai ainda tendo? E sabendo que os mecanismos de crédito estão travados...

Este é o problema.

Fomos mal orientados? Claro que sim!
Mas tivemos as hipóteses de melhorar a competitividade da economia? Claro que sim...
Mas as opções foram outras: novo riquismo, betão, expos e estádios de futebol fizeram desta ancestral nação um autêntico jardim zoológico de elefantes brancos.

Como estaremos em 2013?
Não acredito que estejamos melhor. É necessária uma revolução das mentalidades como pré-requisito para mudar todo o resto. E é aqui que nos compete agir.

Comemora-se hoje o Dia da Europa.
No dia 9 de Maio de 1950, Robert Schuman (um dos pais fundadores da ideia comunitária da Europa) dava a conhecer a sua ideia para o futuro de uma Europa acabada de sair de um terrível período de guerra.
Nesta declaração (Declaração Schuman,que ficou conhecida como a pedra basilar da futura CEE), o ministro francês fala de uma prosperidade económica como fundamental para a prosperidade política e social. Se a Europa quer viver em paz, terá de unir todos os países em torno dos seus interesses comuns. A competitividade deverá ser vista, não como uma ameaça, mas como uma oportunidade.
Desde há sessenta e um anos que a Europa tenta aprofundar esta ideia de cooperação e integração comunitárias.
Este é o dia em que se deve reflectir acerca do que foram estas seis décadas e qual o futuro da Europa. E logo numa altura em que a ideia da Europa Unida está perante tantos perigos: a instabilidade da moeda única (sob o hiperterrorismo especulativo do dólar americano), a tendência para a revogação de certos pilares e acordos (Espaço Schengen), fortalecimento da extrema-direita nacionalista e crítica à integração cultural e perda das soberanias.
E acima de tudo, a Europa está em perigo pois não age em comum. Os umbigos dos países centrais (e fundadores) falam cada vez mais alto.

Gostava de acreditar numa Europa. Mas infelizmente não vejo bom futuro. Se a História tem ciclos, caminhamos rapidamente para o fechar de um desses mesmos ciclos. Não quero acreditar numa nova guerra. Os tempos são outros.
Mas por vezes as guerras são, infelizmente, necessárias para purgar o que está mal.
A reflectir hoje e sempre...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

circular à esquerda em portugal

A esquerda portuguesa mostra uma vez mais a sua reponsabilidade perante o país e os eleitores que nela votam. Ou melhor: o PCP e o BE revelam, decisivamente, que não servem para mais nada senão "fazer barulho".

Com a presença do triunvirato BCE/FMI/UE em Portugal, todos os partidos do parlamento foram chamados a reunir com as referidas instituições de forma a negociarem os termos do empréstimo financeiro a Portugal e, mais importante ainda, conceptualizar o país que se quer edificar daqui para a frente.
Presos a resquícios ideológicos e bafientos de há 40 ou mais anos, PCP e Bloco de Esquerda confirmam aquilo que já se sabia: não são nem nunca serão alternativa credível e o seu contributo para a democracia, com propostas, esvazia-se na teimosia bolchevista dos politburos dos dois partidos.

Admiro Jerónimo de Sousa.
Digo isto abertamente e com sinceridade. Reconheço-o como fiel ao seu partido e ideais. Nota-se que é uma boa pessoa e que sente real vontade em lutar pela classe operária e trabalhadora representada na semiótica partidária comunista.

Quanto a Francisco Louçã, também o admiro. Reconheço-o como um excelente profissional na área das ciências económicas e, por ironia ou não, poderá ser um dos últimos economistas de esquerda à face da terra.
Mas o que me enerva é a intransigência ideológica que estes dois partidos continuam a revelar.

Após o 25 de Novembro de 1975 (data que marca a estabilização democrática e plural após a Revolução de Abril), pensou-se em extinguir o PCP, ilegalizando-o. Porém, considerou-se que o PCP, pela intrepidez com que combateu o regime salazarista, merecia de facto continuar a ser respeitado e a ter presença nas decisões políticas, de forma democrática, plural e assente numa base de apoio dada pelo sufrágio popular.

Para além de todo o simbolismo e capital inolvidável que faz do PCP um símbolo da luta contra a ditadura (e apesar de, após o 25 de Abril, o país ter estado perto de uma nova ditadura mas, desta vez, à esquerda), os seus líderes esqueceram as suas responsabilidades para com o país. Se continuam a ser apelidados como cassetes, é porque o seu discurso preserva a linha clássica da oratória política do tempo do Supremo Congresso dos Sovietes de Moscovo.

Por outro lado, Francisco Louçã envereda no trotskismo da revolução permanente: a utopia da criação de uma sociedade socialista e libertária não faz sentido nos tempos que correm.

Hoje o país está afastado da política.
Não existem líderes e é grave o facto de o PS continuar a teimar em apostar e a prestar um género de culto da personalidade a José Sócrates. Será que o partido com mais eleitores no país não teria outras alternativas?
E o discurso da esquerda mantém-se, tal qual como há 37 anos: PCP e Bloco acusam o PS de estar do lado da direita reacionária que acabou de aterrar na Portela para lançar os tentáculos capitalistas sob o país.
E é sob a égide ideológica que cristaliza esta esquerda portuguesa que o país se vê atarrancado.
PCP e Bloco tinham obrigação em apresentar as propostas em sede de negociação.
Não chega dizer que não concordam com a presença da troika. Esperava-se outra atitude alternativa.
Pelo menos aqueles que neles votam assim o esperavam.
Mas não.
Os tempos do PREC parecem não ter ainda terminado e a esperança no fim do capitalismo permanece viva nestes sonhadores de vermelho.

E por isso, é urgente que o PCP e o Bloco se sentem à mesa...com o PS.
É necessário, sabendo que nunca serão governo, que apresentem aos socialistas os chamados mínimos que permitirão uma estabilidade governativa à esquerda.
As próximas eleições de 5 de Junho apresentam vários cenários. Uns mais, outros menos realizáveis. Ou teremos uma maioria absoluta monopartidária, situação que se julga impensável. Ou teremos uma vitória do PSD que irá pedir ao CDS ajuda para compor o ramalhete.
Mas, caso de uma nova vitória minoritária do PS, a estabilidade não será possível. A não ser se for através de um entendimento entre Passos e Sócrates, cenário improvável dada a enormidade do umbigo de cada um deles.

E é aqui que a tal magistratura activa do Professor Cavaco Silva poderia entrar, chamando a S.Bento um governo por si composto de ampla maioria inter-partidária. Mas Cavaco não é parvo pois sabe que o entendimento seria impossível. Um novo Bloco Central seria nesta altura explosivo.

Enquanto que à direita o entendimento será possível, à esquerda o PCP não perdoará a histórica cisão de Mário Soares em 1975, quando este decide afastar-se do PCP devido à linha programática de um extremismo que conduziria Portugal para a satelização a Moscovo. Para o PCP, o PS será sempre um lobo em pele de cordeiro, um partido que caiu nos deleites do capitalismo.
E é nesta roupa suja cuja nódoa tende a não sair que o país vai evoluindo. Ou não.



quarta-feira, 6 de abril de 2011

há vida para além da europa? (2ª parte)

Conversava ontem com o meu pai.
Assistíamos ao telejornal da SIC, que mais se assemelha a uma daquelas obras proféticas de contornos apocalípticos que, por alturas da viragem do milénio, abundavam nos escaparates, enquanto jantávamos.
Com um repórter em cada um dos PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), tentava-se sentir o pulsar social face ao turbilhão financeiro e económico que se assiste hoje em dia em cada um destes países. Se a Grécia e se a Irlanda já foram vítimas do Fundo Monetário Internacional, Espanha sente que, na iminência de Portugal ser alvo de intervenção da dita instituição, poderá ser "o senhor que se segue".

A Europa de Jean Monet, de Robert Schuman e de Mário Soares está falida.
A cooperação económica e a solidariedade entre os países de forma a atingir o progresso social não passa de uma bonita falácia que, aos olhos de cada vez mais cidadãos "europeus", se esgota.
Hoje em dia a Europa é vista com desdém pois ainda ninguém sabe bem o que significa. O centro da diplomacia comunitária abandona Estrasburgo e Bruxelas concentrando-se, então, na chancelaria de Berlim.

Em 1985, Portugal assina finalmente o acordo de adesão à Europa Comunitária. 
Recusada em 1972 (devido à falta de critérios democráticos de um país ainda assente num regime autoritarista), a entrada de Portugal na CEE fez o país pensar que o céu é o limite. A opção europeísta assumia-se assim como um modelo de desenvolvimento do país, findas que estão as querelas e tensões político-ideológicas que marcaram a transição para a Democracia.
Os fundos estruturais chegavam.
As auto-estradas apareciam e aproximavam-nos dos países centrais do bloco comunitário. A torneira do dinheiro parecia não secar.
Os fundos comunitários, que em teoria serviriam para a modernização do país (económica, social, cultural e tecnológica) de forma a preparar o país para actuar no mercado comum, só Deus sabe que destino tiveram,na realidade.
O estabelecimento de quotas de produção foi entendido como subsídio à indolência. O dinheiro para modernizar a agricultura e as pescas foi entendido como "belos automóveis e casas no Algarve".
O novo riquismo assolava em Portugal no início dos anos 90. 
A falta de uma racional lei sob o arrendamento fez Portugal enveredar por uma profunda mobilidade social sob o critério da propriedade: comprar casa, e ter crédito bancário, eram sinais de um Portugal, não mais rural e pobre, mas sim burguês e rico. 

As marcas internacionais invadiam o tradicionalismo da textura empresarial portuguesa. 
A Expo 98 serviria para mostrar ao mundo que Portugal não era mais o isolado e solitário patinho feio da Europa. Era sim um país que, tendo há 500 anos aberto o mar, abria-se agora ao mundo!

As vacas gordas pastavam em prados verdejantes e alegres...

(continua)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

oportunidade perdida

Como benfiquista, admito sentir uma enorme azia pelo facto do justo título de campeão ter sido entregue ao FC Porto em pleno relvado do Estádio da (falta de) Luz.
Não contesto a vitória portista e aceito-a com naturalidade: foram melhores, foram regulares, apresentaram um futebol agradável, racional e cilindraram o segundo classificado na primeira e na segunda voltas da prova. 
Para além dos factores derivados da própria estrutura portista, beneficiaram do facto de, à 4ª jornada, o título estar praticamente entregue devido à derrocada encarnada, em Agosto, e ao marasmo verde e branco, demonstrado ao longo de toda a época.
O Porto ganhou um campeonato de forma fácil mas com empenho e seriedade.
Ao contrário de muitos outros, que a esta hora já espancaram a mulher como manifestação espontânea de uma frustração vergonhosa, endereço, desde já, os meus parabéns aos portistas. E tenho muitos na família...

Futebóis à parte.
Portugal perdeu ontem uma excelente hipótese de transmitir às novas gerações que amam o futebol um exemplo de cordialidade, galantismo e elevação.
Ao invés, o espectáculo que fez ontem à noite parar o país reflectiu o porquê deste país manter-se num limbo (prestes a cair ao inferno) em termos de valores e cidadania. Se nos queixamos dos políticos e da sua falta de valores e ética, o que dizer daqueles que compõem o eleitorado? Ou seja... o "povo".
A crise começa em nós. Nós, portugueses, somos o grande factor da crise que se depara sobre nós!
Espero um dia que o meu filho perceba que a vida é feita de sucessos e momentos menos bons. 
Depois da pobreza a que assistimos, própria de um país de terceiro mundo que não aceita a democracia de saber ganhar e perder, resta-me apenas continuar na minha total alienação no que toca ao futebol.
Aqui não temos nem maus nem bons da fita. Temos dois clubes que falam a mesma linguagem decadente e anti-pedagógica.
Os clubes, como promotores de exemplos para a juventude, esquecem-se desta sua tão nobre função em troca da ganância pela vitória a qualquer preço... capazes de fazerem de um jogo uma autêntica guerra civil onde a constante crispação e ódio saltam para fora de uma bancada, atingindo o impensável...
Perdeu-se uma oportunidade...

domingo, 6 de março de 2011

conquistar o ouro na vida

Poucos sabem mas desde meados de Fevereiro que acumulo horário, leccionando numa outra escola em Lisboa.
A Escola dos Mestres é uma pequena escola que oferece à população a oportunidade de conclusão do ensino secundário através de unidades capitalizáveis. Por isso, tendo alunos das mais diversas origens e idades, as minhas aulas nessa escola são, maioritariamente, em horário pós-laboral.

Da imensa diversidade de alunos, um deles me chamou à atenção na passada quarta-feira.
Um rapaz, dos seus vinte e poucos anos, entra na sala e, de forma cordial, cumprimenta-me. O rapaz chamava-se Luis. Disse-me que tinha um problema grave (notório) de visão e, no caso de eu escrever alguma coisa no quadro, pediu-me para que ditasse o que havia escrito.
Ele trouxe um portátil e era exímio e rápido na forma como escrevia o que eu dizia, assim como revelador de uma profunda autonomia, ao reter apontamentos pessoais.

A aula correu bem. Tentei sempre certificar-me que o Luis tinha tudo o que era necessário e fundamental.
No fim, cumprimentou-me novamente e agradeceu a aula e o meu auxílio.
Saiu.

Na 6ª feira, quando entrava para dar uma aula, reparei numa fotocópia que sobressaía destacada no painel das informações. Nessa fotocópia, uma fotografia de um atleta, vestido com as cores nacionais, ilustrava uma notícia que dizia que o atleta Luis Gonçalves, de 23 anos e portador de uma grave deficiência visual, tinha conquistado o ouro na corrida de 400 metros nos mundiais de atletismo na  Nova Zelândia. 
Para além disso, o Luis é medalha de prata olímpica na mesma modalidade (Pequim, 2008).


Na realidade, tudo isto me deixou surpreendido mas, ao mesmo tempo, feliz por saber que o ser humano ainda tem um lado que consegue vencer tudo e todas as crises...
O Luis revelou-me o outro lado, com que eu não estava habituado a lidar. É um exemplo de vontade...
Parabéns, verdadeiro campeão! É um orgulho poder ajudá-lo a conseguir o ouro na vida...

terça-feira, 1 de março de 2011

melhores 10 álbuns dos 90's (parte I)

Estas listas valem o que valem. Por si só apenas...
Mas, olhando para esta lista que mostra a opinião dos leitores da Rolling Stone acerca dos 10 melhores álbuns dos anos 90, podemos concluir que esta foi também uma enormíssima década de ouro. Faltarão alguns discos, sem dúvida. Mas, olhando para estes 10 álbuns, reparo que todos eles fazem parte da minha colecção. E isso não deixa de ser significativo.
Aí vai a minha opinião acerca dos primeiros cinco discos.

1. Nevermind, Nirvana (1991)

Gostemos ou não de Kurt Cobain e da sua música (considerada por muitos como sendo decadente e excessivamente surreal em termos líricos), o álbum de 1991 marcou uma viragem na música popular. Acima de tudo, trouxe ao de cima que o mais insignificante membro da sociedade tem raiva dentro de si e a música ganha, por isso, um novo sentido na forma como se comunica.
Sem dúvida, este disco reúne aquele que continuará a ecoar como o hino da juventude dos 90's: Smells like teen spirit... uma ode à rebelião e à impetuosidade juvenil.
Guitarras no limiar do feedback e uma secção rítmica avassaladora  endureciam o complexo imaginário do universo lírico do malogrado Kurt Cobain...
Este disco teve a força de abafar por completo a estética glamorosa em que o rock americano definhava na viragem para a última década do século XX... A partir de Nevermind, o rock nunca mais seria o mesmo... Intocável!  Conseguem imaginar Cobain vivo,ainda hoje?


2. OK Computer, Radiohead (1997)

Tive o privilégio de, em Julho de 1997, assistir no Paradise Garage à apresentação deste disco que, avaliando pelo escasso público que nesse dia acorreu à sala lisboeta, poderia ser apenas e só mais um disco da banda britânica. 
Ao invés disto, recordo tudo aquilo que me passou pela cabeça no fim desse espetáculo: a imensidão sonora e profundidade que OK Computer revelava. Comprei o disco e, após cuidada audição, vi que estava ali uma espécie de Sergeant Peppers em plenos anos 90. Os Radiohead adivinharam o futuro: o domínio da tecnologia sobre o Homem... sem cair na mera crítica, Thom Yorke projectava a Humanidade a rumar ao autismo do conforto tecnológico. Como é que se traduz tudo isto em linguagem musical? Guitarras que ecoam... ritmos desconcertantes e utilização de samples e demais padrões sonoros, conferindo a este disco o epíteto de clássico inovador...
Li algures que Paranoid Android poderia ser muito bem a Bohemian Raphsody dos 90's. Elogio ou não, a verdade é que, um mês após o lançamento deste álbum e dos concertos de apresentação realizados em Lisboa, OK Computer é destacado como uma das novas maravilhas do mundo... houve quem afirmasse que, desde o citado disco dos Beatles de 1967, não havia surgido algo semelhante. Após OK Computer, tantas foram as bandas e artistas que adoptaram o apadrinhamento deste disco... Notável!

3. Ten, Pearl Jam (1991)

Que bela colheita, a deste ano da Graça de Nosso Senhor de 1991!
Eddie Vedder e companhia mostra a nova faceta da moderna banda rock! Conterrâneos dos Nirvana, os Pearl Jam destacaram-se imediatamente pela inconfundível voz do seu cantor. A temática das letras roça entre o pesadelo e a catarse emocional. Em Jeremy, Vedder denuncia histórias que antes ninguém ousava cantar... a solidão...o desespero... a libertação com que atinge o epílogo do álbum (Release). Musicalmente, Ten obedece e celebra as influências americanas dos membros dos PJ: desde Hendrix ao trovadorismo de Neil Young ou Bob Dylan, o som dos PJ ganha em Ten um cariz próprio, muito por culpa de Vedder ,que se assume como a nova imagem do frontman de uma banda de rock... Para ouvir aos altos berros, de camisa de flanela, botas e calções da tropa... Mítico!

4. Achtung Baby, U2 (1991)

Os U2, no final dos anos oitenta, já tinham feito tudo aquilo que podiam fazer. Eram a banda que enchia estádios em todo o mundo e os seus discos vendiam que nem ginjas por toda a parte. Após "Unforgetable Fire" (1984) e, sobretudo, "The Joshua Tree" (1987), as canções dos irlandeses enfatizavam as multidões. Gostar dos U2 nessa altura era ser cool. Bono era o frontman por excelência, capaz de levar ao rubro milhares e milhares de pessoas dentro de um gigantesco estádio. Oriundos de um país tradicionalmente periférico, os U2 conquistaram a América e todo o globo, havendo quem afirmasse que o estatuto dos Beatles parecia estar ameaçado. 
Como disse Bono em 1990, cabia aos U2 deitarem abaixo a àrvore de Joshua. Em 1990, os U2 encontram-se numa biforcação: ou acabam como banda, ou então mudam... completamente.
Com a América aos seus pés, Bono e Cª seguem o caminho menos óbvio. Em vez de voltarem a gravar nos Estados Unidos, os U2 vão para a então recém reunificada Alemanha procurar um novo sentido para a banda. Talvez a euforia da queda do muro pudesse trazer algo de novo a uns U2 que, na altura, se encontravam numa profunda letargia criativa. 
Em conjunto com a dupla Eno & Lanois, os U2 ocupam os antigos estúdios Hansa by the wall e aí, onde Bowie havia gravado a trilogia berlinense nos anos 70, e ao som da reconstrução da indústria e da sociedade alemã,  começam a gravar aquele que seria, para muitos, o melhor álbum dos irlandeses. E um dos mais importantes trabalhos discográficos da História da Música!
Quem assistiu àquelas sessões em Berlim, conta que foram as mais impressionantes jornadas criativas dos últimos 25 anos. Exagero ou não, Achtung Baby traz um novo som aos U2: influenciados pelos períodos berlinenses de David Bowie e Lou Reed, Bono canta em timbre industrial, com a sua voz no auge e amargurada pela chegada à idade dos trintas. O seu universo poético atravessa a própria cidade de Berlim e as vivências e decadências de alguém que  procurava livrar-se de fantasmas e angústias passados. The Edge leva a sua guitarra a dimensões nunca antes visitadas, achando o novo som dos U2 que tanto procurava. A própria vida pessoal da banda não passava a melhor fase: divórcios, separações e tensões internas  serviriam como força criativa para a produção de um disco tão perfeito. 
Em Novembro de 1991, Achtung Baby choca o fã tradicional dos U2. Lembro-me que não foi fácil pois ninguém estava preparado para o que ali estava. Como qualquer disco superior, havia que digeri-lo bem... e calmamente. 
Se The Fly apresentou a nova fase da carreira dos U2, One revelaria a unidade/união que a banda procurava. Numa cidade também agora unificada. Histórico!

5. What's the story (Morning glory), Oasis (1995)

Adorados por muitos e odiados por tantos outros, os Oasis assumiram sem preconceito a admiração pelos Fab Four de Liverpool. Se nos EUA eram os discos produzidos em Seatlle a ocupar os tops, em Inglaterra eclode a guerra civil entre os Oasis e os Blur. Ficou conhecida esta época como a era da Brit Pop. Mais crus e conservadores que os rivais londrinos, os irmãos Gallagher conseguiram neste álbum um autêntico manual de como fazer canções simples que soam a hinos grandiosos: Wonderwall, Don't look back in anger, Roll with it ou Champagne Supernova são ainda hoje canções que não passam com indiferença. Bono, dos U2, terá dito que a canção que mais gostava de ter composto era, talvez, Wonderwall...
Gosto dos Oasis e deste disco, embora seja mais entusiasta pelo primeiro Definitelly Maybe (1994) e pela última fase da banda...
Mas é sem dúvida um disco eterno! Goste-se ou odeie-se!

(Continua)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

beady eye



A voz e as influências são inconfundíveis.
Lembra-me Instant Karma, de Lennon a solo...
Podia ser um novo single dos Oasis mas não. 
Eu esperava, mesmo assim, algo diferente  que marcasse o início de uma nova fase na carreira de Liam Gallagher e restantes Oasis (agora sem o mano Noel).
Estes são os Beady Eye... aguardemos o disco... penso que saiu hoje!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

aconteceu na prisão...

Abriu-se mais um sórdido caso de polícia que corre a passos largos para se tornar em mais um caso de mediatismo absurdo típico da sociedade portuguesa.
Alegadamente, um recluso num estabelecimento prisional em Paços de Ferreira terá sofrido abusos de trato por parte dos guardas desse mesmo estabelecimento.
O bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto,  já veio publicamente repudiar aquilo que considera como práticas abusivas de tortura reveladoras de pragmatismo fascista e totalitário.
O insólito do caso começa no momento em que a cela do dito recluso mais se assemelhava a um autêntico depositório de merda acumulada de gerações! Parece que o sujeito se propunha a desestabilizar a ordem dentro do estabelecimento, procedendo a constantes ameaças e braços-de-força para com os guardas.
A minha opinião é a seguinte: cada caso é um caso. Se o choque eléctrico é utilizado em primeira mão, sem critério e de forma indiscriminada, é grave. Mas se neste caso se verificou exactamente o oposto, já penso de outra forma.
Considero que, num Estado de Direito Democrático, a lei deverá regular situações destas. Raramente, o debate parlamentar aborda as questões imanentes ao quotidiano de um estabelecimento prisional. Só quem lá está é que poderá descrever de forma clara e isenta o purgatório (não só para os presos) que é o mundo das prisões.
A democracia parte da importante permissa de evitarmos tornarmo-nos monstros de forma a vencermos o monstro. A superioridade ética e moral deveria ser sempre fulcral na forma como se gerem as situações do foro público. Legislativo, executivo e judicial.
Considero que os presos não devem ser maltratados mas, em situações onde a sensatez se esgota, as leis deverão regular a forma como se enfrenta, então, dado problema.
Não considero uma prisão uma colónia de férias. Afinal de contas, quem lá se encontra em cumprimento de pena, prevaricou: usou da sua responsabilidade e da sua cidadania optando por eventuais delitos. Apesar de cidadão, pleno de direitos, um recluso não estará propriamente numa posição de exigir tratamento VIP. Porque as prisões (ainda) são propriedade mantida pelos nossos impostos.
Quem lá está acha-se com direitos e mais direitos, esquecendo-se que, se não cometesse tal delito, bem poderia não ter lá entrado.
Concordo com a necessidade de uma política de reintegração social e com a chamada segunda hipótese. Mas uma terceira, quarta e sucessivas novas oportunidades de vir a ser um outro cidadão tornam-se ridículas. Há que reconhecer que por aí existe gente que não quer viver em comunidade. 
Dizem os psicólogos e demais sociólogos que o criminoso é sempre fruto de inúmeras falhas e assimetrias do nosso sistema de bases sociais. E por isso, o sistema está errado e tende-se a desculpabilizar o prevaricador ao invés da absoluta condenação do nosso sistema de organização social.
Mas continua a haver muito boa gente que, apesar da ausência de oportunidades e condições socioeconómicas, não envereda pela lado negro do crime.
Que se averiguem as condições que levaram aos supostos abusos.
Mas deveremos evitar que seja mais uma vez um processo conduzido ao sabor dos ventos de uma comunicação social que, em vez de tentar investigar o caso partindo de um escrutíneo da conjuntura geral que envolve o sistema prisional português, tenta ver neste caso manobras do botabaixismo político, manipulador das massas populares.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

portugal num ápice

Tive conhecimento, via semanário Sol, da suspensão do programa da SIC Notícias, Plano Inclinado.
Tratava-se de um óptimo espaço de debate em que o vulto intelectual de Medina Carreira assumia as suas visões acerca do débil estado da Nação.
Sem papas na língua, Medina Carreira espingardava em todos os sentidos e direcções sem olhar a cores partidárias e levantando sempre questões que pouco simpatizam com o jogo do poder. 
Como moderador, Mário Crespo fazia real juz à sua qualidade como jornalista.
O programa é agora suspenso. Segundo António José Teixeira, director de programação do canal, a retirada do programa vem no seguimento de uma reformulação estratégica do dito canal.
Obviamente que este caso não ficará por aqui. Nas segundas linhas discutir-se-á bastante.
Por outro lado, soa-me demasiado denunciado o fim do programa, sabendo nós dos recentes casos de "possíveis ingerências de terceiros" na gestão dos órgãos de comunicação. Veremos...

Num outro quadrante, a moção de censura anunciada por Louçã nem na praia morrerá. Anunciada no calor de aceso debate parlamentar, o anúncio da dita bomba por parte do Bloco de Esquerda mereceu reparos vindos de dentro do partido. E cabeças rolaram também sob pretexto de não ter sido discutida em sede própria a estratégia para deitar abaixo o governo.
Apanhado de surpresa, todo o parlamento reagiu. O governo apelidou a atitude bloquista de irresponsável. O PCP sentiu-se ultrapassado e já veio afirmar que votaria a favor se o texto da moção (a apresentar a 10 de Março) se mantivesse incólume.
Morta antes de nascer, a moção bloquista revela o carácter erróneo e populista/demagógico da esquerda. Louçã revela falta de responsabilidade ao tentar fomentar crises políticas quando o interesse do país deverá ser, agora e mais do que nunca, a preservação da estabilidade governativa que tem é de trabalhar e promover  uma oposição construtiva.
Quanto ao CDS, Paulo Portas não nega a necessidade de uma moção mas, ideológicamente, sente que não poderá apoiar a esquerda mais canhota.
O PSD gosta desta sensação de poder. Sabe que Sócrates depende de si. Passos Coelho é diariamente confrontado com as possíveis eleições antecipadas. Como compete à oposição, em democracia, os partidos devem vigiar a acção do executivo. A batata quente passa, assim, para Sócrates cuja acção se tem pautado pelo total alheamento dos assuntos do país.
O primeiro-ministro vive neste momento tal e qual um almocreve que, de terra em terra, tenta vender a sua mercadoria que, neste caso, são títulos de dívida pública. De resto, aparece quando obtém um ou outro motivo para ficar bem na fotografia...

Tal como a questão do défice que, segundo a execução orçamental de janeiro, terá reduzido cerca de 58%.
Sócrates, cuidadoso, assobia timidamente uma vitória mas esquece-se que, na sua maioria, estes dados reflectem não uma redução da despesa mas sim um aumento da receita fiscal. Interessa saber, então, se a despesa está, ou não, a diminuir. Ou pelo menos controlada. Penso que só em março éque poderemos ter os primeiros resultados de execuções orçamentais.
Mas, quando ainda Sócrates gritava "vitória", o governador do Banco de Portugal vem para a comunicação social falar do cenário de recessão que já se assiste no país. Considero que Carlos Silva Costa se esqueceu de uma das mais fundamentais leis da Economia:a questão da confiança como pilar fundamental para o crescimento económico. E sendo titular de tão importante cargo, a responsabilidade acresce na forma como se fala para as massas... e para os investidores/credores do país.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

o "outro" homem de aço

La mort de Staline é um álbum de BD francófono que é agora editado em Portugal.
Adquiri-o e, após folhear ao de leve algumas páginas, fica a sensação de um trabalho que tenta ir um pouco mais além do que a mera recuperação da figura histórica do antigo líder da União Soviética. 
Historicamente, não existe ainda absoluto consenso em relação a este Homem-de-Aço (significado de Stalin). Se Herói ou Vilão?


Os autores Fabien Nury e Thierry Robin optam por um desenho realista e directo, fazendo lembrar por vezes o estilo de Mike Mignola. Sombras e tons escuros criam esta atmosfera onde se cruzam a história, o mito/ culto tenebroso da personagem de fundo e também algumas derivações pelo surrealismo e catarse emocional: os momentos que antecederam esse dia de Março de 1953, o impacto da morte de alguém que se assumia como imortal e os enredos palacianos que se seguiram...

Ainda não li mas adivinham-se bons momentos...
Fica a sugestão...