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terça-feira, 1 de março de 2011

melhores 10 álbuns dos 90's (parte I)

Estas listas valem o que valem. Por si só apenas...
Mas, olhando para esta lista que mostra a opinião dos leitores da Rolling Stone acerca dos 10 melhores álbuns dos anos 90, podemos concluir que esta foi também uma enormíssima década de ouro. Faltarão alguns discos, sem dúvida. Mas, olhando para estes 10 álbuns, reparo que todos eles fazem parte da minha colecção. E isso não deixa de ser significativo.
Aí vai a minha opinião acerca dos primeiros cinco discos.

1. Nevermind, Nirvana (1991)

Gostemos ou não de Kurt Cobain e da sua música (considerada por muitos como sendo decadente e excessivamente surreal em termos líricos), o álbum de 1991 marcou uma viragem na música popular. Acima de tudo, trouxe ao de cima que o mais insignificante membro da sociedade tem raiva dentro de si e a música ganha, por isso, um novo sentido na forma como se comunica.
Sem dúvida, este disco reúne aquele que continuará a ecoar como o hino da juventude dos 90's: Smells like teen spirit... uma ode à rebelião e à impetuosidade juvenil.
Guitarras no limiar do feedback e uma secção rítmica avassaladora  endureciam o complexo imaginário do universo lírico do malogrado Kurt Cobain...
Este disco teve a força de abafar por completo a estética glamorosa em que o rock americano definhava na viragem para a última década do século XX... A partir de Nevermind, o rock nunca mais seria o mesmo... Intocável!  Conseguem imaginar Cobain vivo,ainda hoje?


2. OK Computer, Radiohead (1997)

Tive o privilégio de, em Julho de 1997, assistir no Paradise Garage à apresentação deste disco que, avaliando pelo escasso público que nesse dia acorreu à sala lisboeta, poderia ser apenas e só mais um disco da banda britânica. 
Ao invés disto, recordo tudo aquilo que me passou pela cabeça no fim desse espetáculo: a imensidão sonora e profundidade que OK Computer revelava. Comprei o disco e, após cuidada audição, vi que estava ali uma espécie de Sergeant Peppers em plenos anos 90. Os Radiohead adivinharam o futuro: o domínio da tecnologia sobre o Homem... sem cair na mera crítica, Thom Yorke projectava a Humanidade a rumar ao autismo do conforto tecnológico. Como é que se traduz tudo isto em linguagem musical? Guitarras que ecoam... ritmos desconcertantes e utilização de samples e demais padrões sonoros, conferindo a este disco o epíteto de clássico inovador...
Li algures que Paranoid Android poderia ser muito bem a Bohemian Raphsody dos 90's. Elogio ou não, a verdade é que, um mês após o lançamento deste álbum e dos concertos de apresentação realizados em Lisboa, OK Computer é destacado como uma das novas maravilhas do mundo... houve quem afirmasse que, desde o citado disco dos Beatles de 1967, não havia surgido algo semelhante. Após OK Computer, tantas foram as bandas e artistas que adoptaram o apadrinhamento deste disco... Notável!

3. Ten, Pearl Jam (1991)

Que bela colheita, a deste ano da Graça de Nosso Senhor de 1991!
Eddie Vedder e companhia mostra a nova faceta da moderna banda rock! Conterrâneos dos Nirvana, os Pearl Jam destacaram-se imediatamente pela inconfundível voz do seu cantor. A temática das letras roça entre o pesadelo e a catarse emocional. Em Jeremy, Vedder denuncia histórias que antes ninguém ousava cantar... a solidão...o desespero... a libertação com que atinge o epílogo do álbum (Release). Musicalmente, Ten obedece e celebra as influências americanas dos membros dos PJ: desde Hendrix ao trovadorismo de Neil Young ou Bob Dylan, o som dos PJ ganha em Ten um cariz próprio, muito por culpa de Vedder ,que se assume como a nova imagem do frontman de uma banda de rock... Para ouvir aos altos berros, de camisa de flanela, botas e calções da tropa... Mítico!

4. Achtung Baby, U2 (1991)

Os U2, no final dos anos oitenta, já tinham feito tudo aquilo que podiam fazer. Eram a banda que enchia estádios em todo o mundo e os seus discos vendiam que nem ginjas por toda a parte. Após "Unforgetable Fire" (1984) e, sobretudo, "The Joshua Tree" (1987), as canções dos irlandeses enfatizavam as multidões. Gostar dos U2 nessa altura era ser cool. Bono era o frontman por excelência, capaz de levar ao rubro milhares e milhares de pessoas dentro de um gigantesco estádio. Oriundos de um país tradicionalmente periférico, os U2 conquistaram a América e todo o globo, havendo quem afirmasse que o estatuto dos Beatles parecia estar ameaçado. 
Como disse Bono em 1990, cabia aos U2 deitarem abaixo a àrvore de Joshua. Em 1990, os U2 encontram-se numa biforcação: ou acabam como banda, ou então mudam... completamente.
Com a América aos seus pés, Bono e Cª seguem o caminho menos óbvio. Em vez de voltarem a gravar nos Estados Unidos, os U2 vão para a então recém reunificada Alemanha procurar um novo sentido para a banda. Talvez a euforia da queda do muro pudesse trazer algo de novo a uns U2 que, na altura, se encontravam numa profunda letargia criativa. 
Em conjunto com a dupla Eno & Lanois, os U2 ocupam os antigos estúdios Hansa by the wall e aí, onde Bowie havia gravado a trilogia berlinense nos anos 70, e ao som da reconstrução da indústria e da sociedade alemã,  começam a gravar aquele que seria, para muitos, o melhor álbum dos irlandeses. E um dos mais importantes trabalhos discográficos da História da Música!
Quem assistiu àquelas sessões em Berlim, conta que foram as mais impressionantes jornadas criativas dos últimos 25 anos. Exagero ou não, Achtung Baby traz um novo som aos U2: influenciados pelos períodos berlinenses de David Bowie e Lou Reed, Bono canta em timbre industrial, com a sua voz no auge e amargurada pela chegada à idade dos trintas. O seu universo poético atravessa a própria cidade de Berlim e as vivências e decadências de alguém que  procurava livrar-se de fantasmas e angústias passados. The Edge leva a sua guitarra a dimensões nunca antes visitadas, achando o novo som dos U2 que tanto procurava. A própria vida pessoal da banda não passava a melhor fase: divórcios, separações e tensões internas  serviriam como força criativa para a produção de um disco tão perfeito. 
Em Novembro de 1991, Achtung Baby choca o fã tradicional dos U2. Lembro-me que não foi fácil pois ninguém estava preparado para o que ali estava. Como qualquer disco superior, havia que digeri-lo bem... e calmamente. 
Se The Fly apresentou a nova fase da carreira dos U2, One revelaria a unidade/união que a banda procurava. Numa cidade também agora unificada. Histórico!

5. What's the story (Morning glory), Oasis (1995)

Adorados por muitos e odiados por tantos outros, os Oasis assumiram sem preconceito a admiração pelos Fab Four de Liverpool. Se nos EUA eram os discos produzidos em Seatlle a ocupar os tops, em Inglaterra eclode a guerra civil entre os Oasis e os Blur. Ficou conhecida esta época como a era da Brit Pop. Mais crus e conservadores que os rivais londrinos, os irmãos Gallagher conseguiram neste álbum um autêntico manual de como fazer canções simples que soam a hinos grandiosos: Wonderwall, Don't look back in anger, Roll with it ou Champagne Supernova são ainda hoje canções que não passam com indiferença. Bono, dos U2, terá dito que a canção que mais gostava de ter composto era, talvez, Wonderwall...
Gosto dos Oasis e deste disco, embora seja mais entusiasta pelo primeiro Definitelly Maybe (1994) e pela última fase da banda...
Mas é sem dúvida um disco eterno! Goste-se ou odeie-se!

(Continua)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

beady eye



A voz e as influências são inconfundíveis.
Lembra-me Instant Karma, de Lennon a solo...
Podia ser um novo single dos Oasis mas não. 
Eu esperava, mesmo assim, algo diferente  que marcasse o início de uma nova fase na carreira de Liam Gallagher e restantes Oasis (agora sem o mano Noel).
Estes são os Beady Eye... aguardemos o disco... penso que saiu hoje!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

música para me salvar a vida...

A notícia acerca do tão esperado lançamento do novo disco dos Radiohead apanhou-me desprevenido.
Ainda bem.
Confesso o quanto me sentia angustiado em termos musicais por já não ouvir um disco recente realmente interessante.
Apesar de ainda não ter ouvido uma canção sequer deste novíssimo "The King of Limbs", este é já o grande acontecimento do ano em matéria discográfica.
Desde o anterior (e fabuloso) In rainbows que os Radiohead fazem juz à sua aura totalmente indie. 
Sem editora própria, a banda de Thom Yorke despreza o cumprimento de timing, optando por todo um processo de auto-gestão da sua música e direcção artística.
Como já disse há muito tempo, esta é para mim a maior pequena banda do Universo. Fiéis a uma estética própria que, desde OK computer, serve como doutrina para tantas outras bandas,  os Radiohead representam a vertente paradigmática do anti-rock star. Se têm, ou não, esse estatuto, isso é-lhes conferido pela forma autêntica e espontânea com que trabalham. Sem pressas e sem calendários ou jogadas de marketing a rondar o perímetro.

Reafirmo o facto de ainda não ter ouvido uma única nota musical deste disco que será editado via-mp3 no próximo sábado (em formato físico, apenas em Maio). Poderei frustrar as expectativas?
Claro que sim! Afinal de contas In Rainbows é quase tão sublime como OK Computer, embora o álbum de 1997 (hoje em dia apontado como um dos maiores marcos na história recente da música) tivesse aquele carácter brand new na altura. Mesmo assim, o sucessor Kid A (2000) foi arrebatador e comovente...

Ao contrário da maior parte dos projectos, que muitas vezes fazem um óptimo disco de estreia, os Radiohead tiveram segundos álbuns que suplantaram por completo o primeiro disco Pablo Honey (de 1993) , apesar da existência de alguns temas de referência nesse disco de estreia...

Este disco "The King of  limbs", mesmo sem o ter escutado, chegar-me-á cá a casa como um novo estímulo para que eu desista de andar de costas voltadas para a música contemporânea mais recente, em que apenas um ou outro projecto merece atenção... sei que estou a ser demasiado faccioso e desonesto em termos intelectuais...

Mas um disco dos Radiohead salvar-me-á a vida neste momento...

Que venha ele!


Podem já reservá-lo aqui em mp3 ou caixinha deluxe + mp3.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

caixinha de pandora

Não resisti!
Encontrei isto a um preço incrível na FNAC...
Já tinha os vinis originais mas esta caixinha é maravilhosa!
Obrigatório em qualquer colecção!

sábado, 9 de outubro de 2010

lennon


O que seria a música hoje em dia se este senhor fosse ainda vivo?
Muitas vezes interrogo-me...


terça-feira, 17 de agosto de 2010

a revelação do valor de X

Continuando a descobrir novas tendências musicais, chega-me agora às mãos o disco de estreia dos londrinos The XX. Sei que por cá estiveram num festival de Verão qualquer e que não passaram despercebidos.
Tendo já ouvido algo no "oráculo" da Radar, uma banda para mim só ganha sentido ouvindo-a por completo em casa, na minha aparelhagem e com todos os sentidos apurados. E assim foi. Já alguns amigos me ftinham falado da sua qualidade mas, sinceramente, superou as minhas expectativas. A incógnita revelou-se...
Integrados na nova música indie britânica, este quarteto (agora em trio devido ao abandono do teclista Baria Qureshi) envereda por texturas sónicas melancólicas, quase minimais. As guitarras soam de uma forma pura e cristalina, sem efeitos ou sujidade, dissolvendo-se em ambientes etéreos onde as duas vozes do grupo, feminina e masculina (Romy Madley Croft e Oliver Sim, respectivamente) corporizam e humanizam todo este ambientalismo.
Os The XX estão entre uns Velvet Underground e, talvez, uns Cocteau Twins da nova era!

Bom álbum. Fica aqui "Heart Skipped a beat".



domingo, 1 de agosto de 2010

vampiros em fins-de-semana solarengos

Não sendo especial adepto aficionado de música good vibe, alegre e solarenga, para dançar de alpercata no pé e rastas no cabelo, com umas roupinhas que mais parecem confeccionadas num país do hemisfério sul, há que dizê-lo (e assumi-lo) que, por vezes, aparecem-nos boas surpresas.
Toda a gente aqui sabe que, em matéria musical, este que vos escreve é bastante saudosista e nostálgico, chegando mesmo ao cepticismo em matéria de bandas da nova era.
Poucas foram as bandas que, nos últimos 5-7 anos, me motivaram alguma curiosidade.
Falo agora de um álbum que me chegou às mãos: "Volta" dos brooklynianos Vampire Weekend. Se o primeiro disco apresentava já agradáveis surpresas, apontando mesmo novos rumos à pop, este novo "Volta" vem confirmar que não é esta mais uma daquelas esperanças que se despenham ao segundo álbum, perdendo-se em repetições e fórmulas já exploradas no passado por si ou por outros.

"Volta" é um disco de bom espírito. Animado e fresco. Claras fusões do Pop nova-iorquino dos 70's e 80's , que nos relembra por vezes a loucura colorida e saudável de uns Talking Heads, com laivos marcantes de música étnica africana, asiática, sul-americana e mesmo algum tribalismo à mistura. Musicalmente interessante, todo o disco é um deleite em termos de sonoridades e ambiências.

Gostei. Foi daqueles que valeu a pena comprar. Afinal de contas, toda a gente falava deles e eu pouco conhecia pela Radar FM ou Ant3na...

Boa proposta para o Verão!
Fica aqui "Cousins"



sábado, 17 de abril de 2010

um disco fundamental

É um sonho feito realidade.
Um dos mais importantes álbuns dos últimos 25 anos, que me despertou e ainda hoje me influencia, é reeditado numa versão DELUXE carregadinha de extras e demais bombons docinhos. Por várias vezes destaquei-o aqui neste blog, como um daqueles discos que mudaram a minha vida.
Falo do majestoso "Disintegration" dos The Cure que, lançado em Abril de 1989, marcaria o atingir do auge na carreira da mítica banda inglesa. Numa altura em que nos top's abundavam nomes (Technotronic e Milli Vanilli) e canções alinhados com o Italo Pop demasiado volátil e passageiro, poucas eram as bandas que, de uma forma marginal, se desenvolviam em interessantes carreiras produzindo excelentes e eternos registos discográficos.
Em 1989, os Bon Jovi lideravam o que de Rock de Massas se fazia. Apenas os U2, os Pixies e pouco mais marcavam a diferença.
Numa altura de música alegre, os The Cure ediatriam nesse ano um álbum negro, denso, claustrofóbico mas poético e de uma intensidade pura. Não sendo propriamente um disco radiofriendly, Disintegration dar-nos-ia importantes canções eternas como é o caso de Lullaby ou Love Song. E o que dizer de de Pictures of You?
Antítese do formato de canção pop, "Disintegration" era composto por dez temas (versão LP)/doze temas (versão CD e K7) que, em média, durariam cerca de 7-8 minutos cada. Intensas e atmosféricas entradas, feitas de texturas de sintetizadores e melodiosas/calmas frases de guitarra, completadas por uma das melhores secções rítmicas de sempre (Boris Williams e Simon Gallup), Robert Smith deu-nos poesia. Um disco que se opunha tudo e a todas as convenções. Um disco arriscado, após o mega-sucesso de "Kiss me, Kiss me, Kiss me" (o disco de Just like heaven e Why can't i be you?", que ninguém apostaria que tivesse o impacto que teve e ainda hoje continua a inspirar artistas.
Os especialistas/fãs consideraram-no como um regresso a Pornography (1982). Em 2000, Robert Smith considerou que, agora com Bloodflowers, Pornography e Disintegration ganhariam um elo comum.
Mas Disintegration é um álbum à parte. Perto do obscurantismo e romantismo de Pornography, Disintegration está associado ao melhor line-up dos The Cure de sempre (Robert Smith, Simon Gallup, Porl Thompson, Roger O'Donnel e Boris Williams). Com este álbum, Smith e a sua banda cruzaram o mundo, esgotando estádios de futebol (aliás, o primeiro concerto em Alvalade foi nesse ano, em Junho, quando a "Prayer Tour" dos The Cure visitou Portugal).
Um disco eterno e que agora é reeditado. Para além da remasterização que levará o som do disco para uma outra dimensão, esta versão DELUXE trará ainda um cd de extras, com esquissos e demais rascunhos de temas que integraram o álbum e outros que nunca foram editados. Para além disto, um 3º cd, gravado em Wembley em 1989, que engloba os doze temas do álbum mas ao vivo. Ou seja, reedita-se o álbum "Entreat", disco ao vivo editado em 1990, mas agora completo com a totalidade do alinhamento.
Para além disto, um livrinho que mostra textos, fotos e demias documentos da época em que o disco foi lançado, assim como da digressão.
Tudo isto estará disponível a 21 de Maio, 21 anos após a edição original. Um disco obrigatório!

Deixo-vos aqui Plainsong, o tema de abertura de Disintegration. Ouçam e fechem os olhos e as janelas!



sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

na grafenola...neste virar de ano...

Em termos musicais, este ano termina com enormes (e boas) referências. De forma sucinta, revelo aqui o que vai passando (e marcando) cá em casa e no carro. Destaco já, em primeiro lugar, uma grandiosa descoberta: os Animal Collective cujo disco Merriweather Post Pavillion, que não é nem mais nem menos que o seu oitavo disco de estúdio, se afigurou como do melhor que este ano de 2009 nos deu em termos musicais.
Difícil de catalogar, a música destes americanos do Maryland transporta-nos num autêntico carnaval de texturas sonoras que demonstram influências que vão desde as melhores referências da música popular americana até aos sons sinfónicos mais classicistas, mesmo barrocos, passando pela electrónica e pop, sem complexos. Mas tudo isto ganha uniformidade a partir de uma coerente e expressiva linguagem musical muito própria. Um grandioso trabalho. Fica aqui o single "My Girls".
Continuando em terras do Tio Sam, um regresso muito saudado. Os Flaming Lips são talvez uma das bandas mais estimulantes da actualidade. Nunca se sabe bem que direcção irão, de um disco para o outro, tomar. E essa incerteza fá-los continuar a preservar um nicho de mercado só deles. Wayne Coyne, líder e alquimista da banda americana, concebe a música dos Flaming Lips como um autêntico jogo de cores, sons e derivações que se conjugam numa apoteótica cacofonia, jogando com os ruídos e os silêncios, tentando envolver o ouvinte em autênticos labirintos musicais. Os discos dos Flaming Lips são autênticas lições de trabalho de estúdio e de experiência musical. Se o anterior registo, At War with the mystics (2006), revelou por vezes uma tentativa de chegar a patamares mais próximos da canção pop (recordo Yeah,Yeah,Yeah Song), no seguimento do que havia sido feito deste o magistral Soft Bulletin (álbum de 1999) e Yoshimi battles the pink robots (2002), este novíssimo Embryonic vem fechar as dúvidas quanto a uma eventual atenuação da loucura da banda de Wayne Coyne. Embryonic traz quase duas dezenas de faixas cujo mistério se vai desvendando uma a uma, ao longo do processo de audição. Este disco (e os outros dos Flaming Lips) é daqueles que temos de ouvir várias vezes, em diferentes estados de espírito e em diferentes aparelhagens.
Deixo aqui este Convinced of the hex. Fiéis às suas influências e heróis musicais, os Flaming Lips, para além do lançamento deste Embryonic, lançam também a sua versão de "Dark Side of The Moon", obra clássica dos Pink Floyd. Já tive oportunidade de ouvir no site oficial da banda e posso dizer que é magistral a forma como Coyne e Cª revisitam uma das maiores relíquias da música dos últimos 40 anos. Depois de ouvir a versão dos Flaming Lips, coloquei no gira-discos o velhinho álbum dos Pink Floyd. Como uma visão futurista de uma peça de Sófocles ou Shakespear, esta nova versão do clássico disco é uma autêntica homenagem à mítica banda inglesa (que tanto terá ensinado a Wayne Coyne). A aguardar edição nacional mas já disponível no Itunes.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

copenhaga: sensibilidade e bom senso?


A Cimeira de Copenhaga é o happening do momento.
O que poderemos esperar das resoluções lá tomadas? A vontade e o bom senso nestas coisas devem ser maiores que tudo o resto.
Espera-se muito dos EUA, da China, da Índia e dos grandes colossos cujas densidades demográficas e áreas equivalem a proporcionais toneladas de emissões de carbono para a atmosfera.
Por outro lado, já li que tudo isto é demagogia feita à maneira de interesses de terceiros. Outros dizem que as alterações climáticas são um bluff.
Nos EUA, ouvem-se vozes críticas por parte dos republicanos.
Só sei que estamos em Dezembro e ainda consigo sair para a rua sem casaco. Coisa inimaginável há uns anos.

Esta cimeira relembrou-me uma enorme artista, uma grandiosa canção e um magistral e pertinente clip.


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

it really, really, really could happen!

A um mês de nos despedirmos de 2009, avanço aqui já uma óptima notícia que me faz desejar que Janeiro chegue o mais depressa possível.
Após a reunião deste último Verão para 3 concertos esgotadíssimos em Hyde Park (Londres), os Blur vão ser figuras centrais de um documentário que estreará, em Janeiro, nas salas de cinema inglesas.
Especula-se muito sobre um eventual futuro destes Fab Four (perdoem-me a eventual blasfémia). Para já, este "No distance left to run" conduz-nos, a partir dos recentes concertos de Hyde Park e da água na boca que deixaram, tanto na banda como no público, para um percurso biográfico de um dos mais interessantes projectos musicais das últimas décadas.
Podem ver o trailer aqui.
Para recordar, deixo aqui o video de "The Universal", uma das melhores peças compostas pela banda, que homenageia de forma assumida Stanley Kubrick em "The Orange Clockwork".


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

julian casablancas

Julian Casablancas edita na próxima segunda-feira o seu disco a solo, PHRAZES FOR THE YOUNG. O vocalista dos Strokes aposta agora numa mudança de estética sonora. Aproxima-se dos sintetizadores dos 80's e deixa as guitarras eléctricas um pouco para trás.
Em termos visuais, Julian apresenta-se como que a pairar entre o sentido classicista da Deutsche Grammophon e as discotecas subterrâneas dos idos de oitentas.
Não se preocupem, fãs dos Strokes, que está prometido para breve um novo álbum da banda nova-iorquina.
Para já, este 11th dimension faz-nos crescer água na boca...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

a música que podia ter mudado a pop

E lá ouvi finalmente o novo "Let's change the world with music", o novo disco dos Prefab Sprout.
Embora muitos já não se lembrem desta banda, eu continuo a ter um carinho especial por ela.
Este novo disco só é novo pois foi lançado o mês passado. Na realidade este é um trabalho que começou a ser produzido no Outono de 1992 (!!!) e que só agora nos chega às mãos.
Por vezes ouvimos dizer que tal artista tinha uma música, um filme ou um livro que nunca havia sido dado a conhecer. E iguais vezes acabamos por entender o porquê dessa omissão. Lembro-me de, na década de 90, se descobrir gravações perdidas de John Lennon. Com os truques de gravação da altura (já bastante evoluídos) juntaram-se os restantes Beatles para dar forma àquela que seria the ultimate song dos Beatles. Falo de Free as a bird (lançada na altura da série/soundtrack The Beatles' Anthology).

Quando a ouvi, percebi porque é que nem Lennon nem Mcartney a colocaram num alinhamento de um álbum seu, seja em grupo, fosse a solo.
Meramente objectos de culto, por vezes estas pérolas achadas não valem mais do que o mero facto de serem achados. Sem valor prático e que podiam muito bem continuar escondidas do mundo.
O que se passa com este novo trabalho dos Prefab Sprout foge, em sentido contrário, ao que falei.
Paddy McAloon, o genial compositor e cantor da banda inglesa, oferece-nos um autêntico Graal Perdido recheado do melhor Pop que alguma vez foi feito.
De regresso ao meu post acerca da qualidade (ou não) da música Pop, temos aqui a fórmula certa e a excepção que valida a regra.
McAloon deu-nos esta prenda de Natal atrasada em 17 anos e, mesmo o som do disco parecendo datado, leva-me a pensar "Este gajo...como é que consegue arranjar esta inspiração?".
Assinado como Prefab Sprout, o disco é na realidade composto, tocado e produzido na íntegra por Paddy McAloon. Mas a essência está lá toda. Aquele charme, que sempre ilustrou esta banda, e a voz permanecem intactaos(embora, fisicamente, McAloon parece actualmente que tem uns 80 anos).
Gravado em 1992, este seria o sucessor lógico de um outro grandioso trabalho, Jordan: The Comeback (1990) mas que acabou por ficar na gaveta de um estúdio em Newcastle...esquecido.
Liricamente, McAloon tem dos seus melhores trabalhos: as derivações metafóricas à volta da Espiritualidade da Música revelam o quanto este homem gosta daquilo que faz. Transcendência através da música, nas palavras de McAloon (texto presente no inlay do disco).
Imagino isto tocado pela banda. É o único senão do disco. Foi completamente gravado com sintetizadores da altura o que lhe confere uma certa datação...
Mas quando temos canções como estas...nada mais importa!
Destaco Let there be music e Ride.
Recomendo vivamente para quem gosta de POP.
Eu rendi-me.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

a-ha

Conhecidos essencialmente pelo imortal "Take on me" (cujo videoclip, em 1985, tanto deslumbrou e continua a merecer elogios), os A-HA, trio norueguês ainda no activo, anunciaram hoje a sua dissolução. Ao longo de 25 anos de carreira, os A-HA, longe dos tempos de meninos bonitos em que figuravam nas capas da revista Bravo, continuaram a lançar discos e alguns deles com boas canções.
Fica esta de 2002, cujo videoclip é simplesmente deslumbrante. Filmado na Noruega em 2002, ao longo de um ano...


terça-feira, 8 de setembro de 2009

os fatídicos anos do plástico: houve boa POP nos 80's?

Actualmente está na moda a arqueologia dos anos 80. É engraçado pois, há cerca de 10 anos atrás, andava eu a descobrir o bom que os anos 70 nos legaram em termos musicais. Penso que, a partir de 2011, voltaremos a ver malta vestida de calças da tropa, botas Doc Marteen's e camisas de veludo aos quadrados como que suspirando pela época em que Seatlle era a Meca do mundo musical, assim como tocar desafinado (crítica não minha mas de gentes que torceram o nariz ao advento da musica grunge, alegremente eufóricos após a morte de Kurt Cobain), com uma enorme carga de sentimentos maníaco-depressivos, é que era de macho.
Ainda antes de toda esta febre pela música e pulsar popular de há cerca de vinte anos, muita gente referia que essa mesma música era do piorio. O POP dos 80's era ridículo, piroso e aberrante na sua essência, assim como os cabelos com laca, maquilhagem e o guarda-roupa onde cores como o rosa choque, laranjas, amarelos e padrões tigrados abundavam de forma dominante.
Hoje chegamos à conclusão que, afinal de contas, esses tempos já nos manifestam uma certa nostalgia. Era a época do POP electrónico. Cada trecho musical (na sua maioria respeitando as medidas certas em termos radiofónicos e não excedendo os famosos três minutos de duração) era um autêntico mergulho nas potencialidades sonoras dos sintetizadores digitais (que se afirmariam na década de 80).

A nanotecnologia permitia poupar em espaço: se os computadores deixaram de ocupar salas e salas, os teclistas deixaram, progressivamente, de estar obrigados a acartar um piano, mais um órgão, mais um sintetizador analógico e mais dois ou três instrumentos para fazer um espectáculo ou uma gravação. O mítico Yamaha DX-7 foi rei nos anos 80. Rara será a banda ou artista que não se tenha, nessa altura, cruzado com essa pequena maravilha do mundo da tecnologia digital.
E por isso ouvimos estas músicas POP 80's e, como que a admirar as várias tonalidades cromáticas e expressivas de um quadro, sentimos nesses 3 minutos, 3 minutos e meio a assumpção de toda a música POP.Um verdadeiro desfile de sons e sonzinhos e refrões emblemáticos que se agarram, que nem uma lapa numa rocha, aos nossos ouvidos alastrando, depois, a todos os sentidos.
É perigoso afirmar que os 80's foi a época menos dourada da música POP. Assim como seria tendencioso afirmar que seria nos 60's a Golden Age da POP. Tempos, espaços e protagonistas à parte, se hoje em dia qualquer boteco faz uma festa plena de saudosismo dos oitentas, não menos verdade será que, há uns anos atrás, gozava-se com a música dos anos 80. Mas esquecemo-nos que as grandes bandas esgotaram-se nos anos 80. Os U2? Os Simple Minds? Os Cure e os Smiths? Até os Stone Roses lançam a sua obra-prima em 1989! E os Echo & The Bunnymen que, numa altura de invasão electro pop cheesie nos tops de 1984, lançavam Ocean Rain.

Para muitos daqueles que enchiam estádios em meados de 80, a seguinte década observaria a sua plena decadência, filtrando-se apenas aqueles que se reinventariam (lembro aqui a metamorfose dos U2 em 1991 com o disco Achtung Baby).
Mas o que será isto do POP dos anos 80? Será que houve bom POP nesses fatídicos anos do plástico,como eu já ouvi, curiosamente, chamar?

Esquecidos por muitos, os Prefab Sprout foram daqueles poucos momentos em que a POP dos 80's transcendeu os seus cânones mais rígidos. Numa altura em que as Samanthas Foxes e as Sabrinas enchiam de testosterona os tops com músicas que mais se assemelhavam a ilustrações sonoras dos calendários das oficinas, na Inglaterra ,que tanto à música deu (e continua a dar), um jovem chamado Paddy McAloon apresentava uma série de canções de formato POP mas muito maneirista na forma como encarava a POP que se consumia na altura.
De harmonias nunca dantes navegadas, combinando sucessões de acordes aos quais muita gente torceria o nariz pois não soariam bem, McAloon criava magia perante tão desaguisado musical. Mas torneava a estranheza pintando de requinte as suas canções POP.
Em 1985, o álbum Steve McQueen (que nos EUA intitular-se-ia Two Wheels Good, devido a um processo jurídico imposto pela filha do famoso actor) apresentava-nos uma banda que desejava ser marginal face ao mainstream existente nesse ano.
McAloon compunha canções simples mas cheias de personalidade. Em termos líricos, o seu discurso cruzava a fluência do mais requintado lirismo e, ao mesmo tempo, tocava a simplicidade do discurso sem qualquer pudor ou preocupação formal.
Actualmente, e numa altura em que os Prefab Sprout lançam um novo álbum (que não é novo pois já está para ser lançado há cerca de 17 anos e que vê em 2009, finalmente, a luz do dia), de seu título "Let's change the world with music", voltei a ouvir a masterpiece Steve McQueen e o conceptual Jordan: The Comeback, de 1985 e 1990, respectivamente. Voltei a esta impressão de desfrutar do que afinal de contas a POP tem de bom. Paddy McAloon tem uma voz única e carismática. Suave e grandiosa. E parece que os anos por ele não passam...

Se alguém dúvida de que a POP também tem disto ... deixo aqui a recordação de When love breaks down, de Steve McQueen..
A ver se arranjo este novo álbum "Let's change the world with music"...


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

harry patch

O último combatente inglês na 1ªGuerra Mundial, o senhor Harry Patch, morreu há algumas semanas atrás com a idade de 111 anos!
A entrevista por si dada há cerca de dois anos foi mote de inspiração para que os grandiosos Radiohead nos brindassem com uma nova canção de seu título "Harry Patch (in memory of)". Segundo o vocalista dos Radiohead, Thom Yorke, "seria muito fácil para a nossa geração esquecer os verdadeiros horrores de uma guerra, se as palavras de Harry Patch não nos recordassem. Espero que nunca esqueçamos".
Para além do espectro da guerra na inspiração desta canção, ressalvo igualmente o dramatismo envolvente, a simplicidade do arranjo musical e o lirismo anti-poético mas realista que faz com que esta não seja apenas mais uma canção anti-guerra.





I am the only one that got through
The others died where ever they fell
It was an ambush
They came up from all sides
Give your leaders each a gun and then let them fight it out themselves
Ive seen devils coming up from the ground
Ive seen hell upon this earth
The next will be chemical but they will never learn.

terça-feira, 16 de junho de 2009

isto é que era uma banda!


Os Echo & The Bunnymen, sem nunca terem atingido o estrelato universal de outros seus contemporâneos, distinguiram-se pela criação de um universo só seu. Esse Universo nebuloso e recôndito fez-se de sistemática procura por soluções sonoras e líricas que não se limitassem ao simples (e clássico) trieto guitarra-baixo-bateria, preferindo adiccionar à densidade e à paisagem da sua música elementos melódicos pouco usuais (à época) na pop, como sons e escalas orientais e de câmara . Tudo seria fundamental, sem negligenciar o valor poético das letras dos Bunnymen, para criar uma textura sónica e artística única.
Germinados a partir de sementes pós-punk (cronologicamente, finais da década de 70), a banda de Ian Mculloch voltou a colocar Liverpool nas bocas da crítica musical durante a década de 80. 
Muitas vezes comparados aos Cure, aos Smiths, Jesus & Mary Chain ou Sisters of Mercy, os Echo & The Bunnymen, vistos a esta distância, são únicos. Nota-se na sua música uma certa datação estética mas sem dúvida que álbuns como Crocodiles, Porcupine ou o fenomenal "Ocean Rain" permitem transportar este enorme colectivo para a eternidade da pop-rock marginal da década de 80. E que ainda ressoa, duas décadas e meia depois, num mercado cada vez mais carente de bandas e projectos de culto.
Deve-se este post à redescoberta que fiz dos Echo & The Bunnymen. Confesso que há muito não mergulhava no oceano musical da banda inglesa, tendo apenas dois discos em vinil. Comprei agora a colectânea "Crystal Days 1979-99" que, para além da apetitosa caixa de luxo com fotos, artigos, críticas de especialistas e depoimentos de produtores, músicos e membros da banda (até de Pete deFreitas, malogrado baterista dos Echo, então falecido), reúne em quatro cds (72 músicas) uma ampla visão sobre o melhor que esta banda deixou. Para além de ser completa ao nível de escolha dos temas mais emblemáticos, "Crystal days 1979-99" apresenta ainda os primeiros singles independentes, versões recriadas de artistas que foram referência para os Bunnymen (Velvet Underground, Bob Dylan, Joy Division e The Doors) e também algumas actuações ao vivo que comprovam o cerimonial lirismo que caracterizava um espectáculo dos Echo & The Bunnymen nos bons velhos anos 80, com especial destaque para a força percussiva de Pete deFreitas e da voz sofrida e única de Ian Mculloch.
Sendo difícil apontar um só tema, face à variedade do espectro musical da banda, decidi colocar aqui uma versão ao vivo de "The Killing Moon", dessa obra prima intitulada "Ocean Rain".


Já não se fazem bandas assim!!!!

terça-feira, 21 de abril de 2009

substance 1987


Perdi há uns tempos este disco.
Consegui recuperar o prejuízo ao comprá-lo no Amazon a um preço irrisório. Causou-me enorme desconforto não o ter à mão durante cerca de dois anos. Mas já o tenho.
"Substance 1987" dos New Order é um disco sublime, embora seja uma compilação. Os puristas afirmam o seu relativo desprezo por compilações por considerá-las muitas vezes insuficientes para conhecer o trabalho de certa banda ou artista. Por outras vezes, as compilações apenas são modos de salvação por parte das editoras fazendo recurso do seu fundo de catálogo.
Mas esta compilação que abarca os singles da banda surgida das cinzas dos Joy Division é magistral, fazendo, na altura da sua edição (1987) o ponto da situação da banda. Realmente, os New Order assumem-se como um exemplo de honestidade artística. Sendo impossível a continuação do anterior projecto dado o desaparecimento trágico de Ian Curtis, os New Order marcam de imediato a sua posição logo na pia baptismal. Recorrendo uma vez mais ao imaginário nazi (Joy Division era o batalhão alemão nazi responsável pelo "apuramento" da raça ariana), o nome "New Order" (nome da doutrina que Hitler queria implantar na Humanidade, após o seu triunfo) marca as pistas para o futuro, após a morte de Curtis. Mais electrónicos, os New Order são hoje revisitados na sua essência. Um espólio marcante que sintetiza a herança musical única dos Joy Division com a electrónica/acid house de Manchester que assolava e soprava para a Europa e Mundo.
Desde "Ceremony" (ainda do tempo de Curtis) a True Faith, "Substance" é um autêntico carrossel da melhor pop electrónica dos anos 80 que ainda hoje soa a fresco. Por entre "Everything's gone green", "Subculture", "Bizarre Love Triangle" ou então "Temptation", toda esta colecção fez na altura um ponto da situação. Ainda hoje é uma bíblia à qual muitas novas banda recorrem, ressuscitando o vigor da banda de Bernard Sumner e Peter Hook (que em 2007 abandonou a banda, suscitando já rumores de um fim da banda). 
Para além destes singles (sim, sim, está lá Blue Monday também), o segundo disco traz-nos todo um apetitoso ménage de peças nunca editadas e que têm todo o sentido. Destaque para o magistral "In a lonely place", exorcizada do mundo tortuoso de Curtis.

terça-feira, 17 de março de 2009

no horizonte (quase) nada de novo

Tem sido assim ao longo dos tempos!
Um disco novo dos U2 gera sempre enorme ansiedade nos espíritos: se por um lado os fãs da banda irlandesa rejubilam com mais um trabalho que se pensa ser "o último de uma bonita carreira de trinta e tal anos", os mais atentos ao fenómeno da música pop encaram sempre com reticência uma efeméride deste calibre dada a constante camaleónicoantropia que sempre Bono e Cª habituou o mundo da música. Mesmo longe da produção em série própria de um início de carreira durante os anos 80, os U2 marcaram as rupturas e as novas tendências dos 90's lançando poucos mas marcantes discos. Achtung Baby (1991) inaugurou, juntamente com Nevermind dos Nirvana, os anos 90 e (felizmente) calou a goela a tantas personagens que cirabandeavam o universo  Rock FM, Hard Rock clássico e Pop Xunga que, em anos não muito distantes dessas alturas, conspurcavam de forma enjoativa os escaparates e tendências musicais. Se calaram a boca a uns, trouxeram para a vanguarda outros. Muitos se renovaram, muitos se esfumaram. Depois, Zooropa (1993) assumiu-se como um lógico irmão bastardo do belíssimo e controverso disco de 1991. Pop (1997) determinou o fim do acto de loucura: apesar do brilhantismo das canções que o integravam, o disco mais eclético e louco dos U2 inovou mas não convenceu de forma unânime: pela primeira vez a Internet, desvendou um disco seu obrigando a banda a trabalhar de forma mais rápida. E como diz o provérbio, a pressa é inimiga da perfeição. O disco revela autênticos problemas de produção embora com notáveis momentos (Discoteque, Gone, Please, Mofo, Wake up dead man) que ganhariam (e não foi pouco) com a transformação desses mesmo temas ao vivo. Pelo meio, um disco do alter ego da banda, "Original Soundtracks-The Passengers" que nos trouxe um trabalho típico de estúdio feito a meias com Brian Eno, Daniel Lanois e outros sob enorme signo da inspiração.   
O novo século abriu com uns U2 à defesa.
Acima de tudo estavam as canções nuas, cruas e puras de "All that you can't leave behind". Talvez menos interessantes. Mas sem dúvida de enorme eficácia. Era a crise da meia idade! 
Em 2004, apesar das promessas de um álbum de guitarras e amplificadores a espumar de raiva, "How to dismantle an atomic bomb" confirmou estes U2 afectados pelo (dito por muitos) fracasso de Pop. De simples trocas de bola, sem grandes brilhantismos ou mestria técnica, os U2 voltavam à fórmula antiga: Steve Lillywhite, que havia produzido os primeiros discos (Boy, October e War) encabeçou uma equipa de produção que acima de tudo mostrava uns U2 de barbinha feita e chinelinho confortável no pé.
E chegamos a 2009. Após reedições,dvds e colectâneas, os irlandeses anunciam Rick Rubin como timoneiro na fabricação de novo disco. Após algum tempo, arrependem-se. Prescindem de um dos mais conceituados produtores a nível mundial (que qualquer artista daria a p...a para ter um disco com a chancela deste senhor) e vão buscar os velhos amigos que compõem a dupla Eno & Lanois. Autênticos globetrotters, a banda procura ideias na aridez do Saara marroquino.
O resultado está aqui na minha mão: "No line on the horizon".
É-me difícil dizer o que penso acerca de um disco destes senhores que me acompanham desde sempre e que tanto me deram. Mas assumo desde já que tudo o que eu escrever poderá mudar com o tempo. Isto é muito intuitivo e quis guardar uma opinião para depois de conhecer este novo álbum de forma segura. Quem me conhece sabe que sempre fui muito céptico em relação aos U2. Talvez má habituação e mimos a mais. É uma autêntica amargura o momento em que escuto algo novo destes tipos. 
Não sei se valeria mais a pena referenciar cada canção, uma por uma mas eu odeio singles. Um álbum é um todo. É um quadro. É um livro que merece ser entendido como um só.
Mas uma coisa eu assumo: este disco tem as melhores canções que os U2 fizeram desde Pop (não inclusivé!). As canções "No line on the horizon" e "FEZ-Being born" são estimulantes, não pela inovação, porque não o são, mas sim pela destreza e valor que têm em si! Adoro quando os U2 aderem ao caos sónico típico do tema que dá título ao disco e à ambiência de "Fez-Being Born"!
Pelo meio encontramos aquilo que estes senhores nos habituaram nos últimos trabalhos: cantigas de lá-lá-lá dizer cheias de Coca-Cola, Big Macs e Stars & Stripes (Breath, numa abordagem lírica aos grandes trovadores americanos, e Stand Up Comedy, em que Bono estabelece uma retrospectiva da sua vida como activista que, tal e qual Napoleão, é um pequeno homem de grandes ideais). 
Depois temos algumas músicas que prometem mas não explodem: "Unknown Caller", em que o refrão sincopado é o melhor que a música terá, "Moment of Surrender",que chegou a fazer lembrar os tempos de Berlim mas que rapidamente se perde essa sensação face ao cariz gospel que a canção ostenta (não obstante o magnífico trabalho que The Edge mostra nesta faixa).
Num diferente nível, "Magnificente" relembra-nos uns U2 de tempos idos. Um autêntico "coming out from the past" mas que seria, em 1984 e 1987, um excelente B-Side. Um dos melhores temas do disco... (!!!)
Depois, as experiências mais calmas: "White as snow" e "Ceddars of Lebanon" que trazem alguma introspecção ao disco, com a minha preferência a incidir sobretudo na segunda. 
Por fim, temos o lado que eu mais odeio nos U2: o de querer ser uma banda pop para ter airplay na MTV. "I'll go crazy if i don't go crazy tonight". Com um título destes só poderia estar à espera do pior. E não me venham dizer que "Sweetest thing" é pop do pior pois não é! E tomara esta ter a mesma mística que a música que Bono dedicou à mulher como perdão por se ter esquecido do seu aniversário. Coloco esta música ao nível de "Staring at the sun",  tema de "Pop"que continua a passar na rádio, e este talvez nunca o venha a conseguir... (se esse será o intuito dos U2 ao comporem um tema destes).
Em relação a "Get on your boots", já disse tudo o que tinha para dizer. Acrescento que ao vivo até poderá ter força mas não me chateia nada se não o ouvir  em concerto.
Para concluir e em jeito de síntese.
"No line on the horizon" é um disco que não chateia, em que as melhores músicas do disco são realmente muito boas mas que revela uns U2 pouco criativos. Volto a dizer que nunca aconselharia alguém que quisesse conhecer os U2 a começar por este disco pois de certeza que lhe passaria ao lado. 
Apesar dos sebastianismos de um novo "The Joshua Tree" ou "Achtung baby", este álbum enquadra-se perfeitamente no ciclo da banda durante esta primeira década do século XXI.
Um disco que tem de ser ouvido com calma. Não é fácil. 
Pontos positivos: as letras de Bono! Desde Pop que não lia tão boas letras nas cantigas dos U2 (salvaguardo "The Ground beneath her feet", letra de Salman Rushdie). O carrossel de sons e produção de Eno & Lanois, que partilham com a banda também créditos ao nível de autoria. 
Esperemos então pelo que se segue!