sexta-feira, 18 de novembro de 2011

as aventuras de tintim

Desde os meus doze anos que os livros do Tintim me definem em parte.
Graças a ele, eu ambicionava ser jornalista...ou então astronauta...e (porque não?) arqueólogo, mergulhador ou, simplesmente, viver uma vida repleta de aventuras lancinantes non stop...
Cresci a ler os livros do Tintim e faço figas para que o famoso chavão que se aplica ao público alvo do herói criado por Hergé, "dos 8 aos 88", se aplique (e resulte comigo).

Não esqueço a primeira vez que contactei com Tintim. O primeiro livro que li foi "Os Charutos do Faraó". Captado pela vivacidade do enredo, pela estonteante aventura e pelo périplo geográfico que conduzia o argumento, só alguns anos mais tarde é que consegui ler a conclusão da história: "O Lótus Azul" é considerado como das melhores e mais completas obras de Hergé. É o ponto culminante de "Os Charutos do Faraó", que leva o " repórter do Petit Vintiéne" à China em plena Revolução Cultural, desvendando certos mitos do Maoismo que chocariam o Ocidente.
Política à parte, fui comprando ao longo dos anos a coleção completa. Só no ano passado é que consegui completar o espólio ao adquirir "Tintim na América" e "Tintim e os Pícaros" (obra maior em que o ambiente de "O Templo do Sol" é revisitado".
Não esqueço também "A Ilha Negra", "O Ceptro de Otokar", "O Caranguejo das Tenazes de Ouro" e a odisseia espacial (anterior à Missão Apolo) de "Rumo à lua" e "Explorando a Lua". A aproximação à ficção científica de "Vôo 714 para Sidney" é outra das maiores aventuras de Tintim: talvez J.J. Abrahams se tenha inspirado nela para "Lost"...



Recentemente, em conversa com um colega de trabalho, fui espicaçado para revisitar "As jóias de Castafiore", considerado como o mais leve álbum de Tintim: leve pois, ao contrário da multiplicidade geográfica que caracteriza os outros álbuns, este circunscreve-se exclusivamente os espaços interiores e exteriores do Palácio de Moulinsart. 
Não sendo propriamente um livro em que a aventura se assuma como o principal foco de atração para o leitor, Hergé desenvolve em "As jóias de Castafiore" uma forte reação ao poder dos media e à manipulação da opinião pública e publicada. 
Por outro lado, no mesmo álbum, Hergé explora de forma mais profunda o caráter das personagens centrais da saga. Este é também o álbum em que o autor assume a necessidade de esclarecer boatos em relação às suas opções e simpatias ideológicas. Acusado de ser adepto do nazismo e anti-comunista, Hergé apresenta-nos neste álbum um Tintim que ajuda famílias ciganas, face ao preconceito existente na altura relativamente a este povo.

Tintim volta a estar na moda em pleno século XXI.
Durante os dois últimos anos, os álbuns do repórter "francófono" têm sido reeditados em Portugal, com uma nova e politicamente correta tradução, como que em jeito de preparação de terreno para o filme que recentemente estreou no cinema.
Tendo já lido algumas críticas, nunca me recusaria a ir ver o filme. Não sou um fundamentalista e purista da obra de Hergé.
Sabia perfeitamente que o álbum "O Segredo da Licorne" não garantia por si só a espetacularidade que um filme de Spielberg e Peter Jackson exigiria.
Mas Spielberg, partindo da trama original de "O Segredo da Licorne", decide afirmar que o seu filme não segue religiosamente o argumento clássico e original. 
O argumento aborda 3 álbuns de forma a reconstruir a história em si: ao mistério das três Licornes, junte-se o famoso cargueiro Karaboudjan onde Tintim conheceu o Capitão Hadock, originalmente em "O Caranguejo das Tenazes de Ouro". De seguida Spielberg opta por voltar a "O Segredo da Licorne" e ao seu epílogo em "O Tesouro de Rackham, o Terrível".
Afastando-se do purismo das histórias originais, o argumento aprofunda-se e é recriado livremente. Chegamos a uma altura do filme em que nos recordamos de Indiana Jones, dados os óbvios paralelismos que encontramos entre uma e outra personagem. A disputa entre Hadock e o hipotético descendente de Rackham é uma outra manobra argumentista que foge por completo ao enredo original.
Para os mais puristas, estes revisionismos e adulterações serão autenticamente sacrílegos. Para mim, fazem parte da necessidade de achar bons tópicos para um filme cujo objetivo maior é o puro entretenimento. 
Ação múltipla e ritmo elevado caracterizam o estilo de Spielberg nos seus filmes de aventuras. Aqui encontrarão tudo isto ( e ainda mais).
Ponto altamente negativo:a pronúncia escocesa do Capitão Hadock (vi o filme na versão inglesa) e o total apagamento do ambiente francófono que tanto distingue o universo de Tintim. Por manobras comerciais, ou não, esta opção foi, a meu ver, bastante infeliz. 
Com mil milhões de macacos!!!!!
Por último, "As Aventuras de Tintim - O Segredo da Licorne" é um filme para entreter, enquanto devoramos umas pipocas confortavelmente no conforto de um domingo à tarde em família. Não dispensa os livros que continuarão a ser, para mim, a referência.
Pelo que é dado a entender, sequelas estarão para breve. Spielberg sabe que, ao seu dispor, boa matéria prima não falta! Direi mesmo mais: Não falta matéria prima ao seu dispor!!!!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

guerra do peloponeso

Chamem-lhes o que quiserem chamar, mas os gregos, em termos de cultura cívica, dão "dez a zero" aos portugueses.
Ao anunciar a realização de um referendo para votar o sim ou não à nova remessa de dinheiro, no âmbito da "ajuda" financeira do FMI, BCE e UE, o primeiro-ministro Papandreou lançou o caos na zona euro.
Realmente, estes democratas que habitam Bruxelas, quando se fala de democracia, têm medo de jogar o jogo.
O que muitos consideram um auxílio, outros referem-se a esta assistência financeira como sendo um massacre à população que o tem de pagar, a bem ou a mal. Estas assistências financeiras têm maior probabilidade de correrem mal do que terem impactos positivos. Excluindo o Chile, em 1973, aquando da subida ao poder de Augusto Pinochet, após o golpe de estado apadrinhado pelos EUA, todos os outros "auxílios" têm demonstrado uma receita desastrosa e calamitosa. A última vítima foi a Argentina. Agora a Grécia. De seguida será Portugal e por aí adiante.
Papandreou faz ressuscitar na Grécia o espírito verdadeiro da democracia da polis clássica no tempo de Péricles: consulta à comunidade se querem, ou não, continuar nesta espiral maligna de afundamento de um futuro que, a cada dia que passa, se afigura como mais negro ainda.
O povo grego vai ter a legitimidade de dizer se quer, ou não, continuar a cavar um buraco ou se quer bater, de uma vez por todas, bater violentamente no fundo desse buraco. A queda afigura-se como brutal e violenta. Há quem diga que é preciso cair mesmo de vez para que nos voltemos, a maior ou menor custo, a erguer. Há quem defenda que a eutanásia é preferível a uma degradante morte lenta.

A Europa encontra-se na encrusilhada mais alarmante da sua ainda curta História. O Euro foi um erro. Pelo menos para muitos países que tanto fizeram (ou não) por merecer a sua participação no pelotão da frente em 2002.
Aguardam-se desenvolvimentos.
Para já, a reunião do G20 revelará, uma vez mais, que as grandes decisões económicas e finaceiras continuam nas mãos de instituições fora da esfera de soberania política.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

frank miller

Atenção a todos os fãs de Frank Miller!
Finalmente foi editada a tão aguardada nova graphic-novel do autor de 300, Sin City e The Dark Knight Returns. De seu título Holy Terror!
Frank Miller, um dos mais importantes nomes da BD americana nos últimos 25 anos, conta-nos a história de um novo personagem (The Fixer) que decreta uma jihad à Al Quaeda!!!
Ao jeito do célebre autor, esta obra reúne tudo aquilo que Miller sempre nos habituou... ação, drama, abnegação épica e burlesca carnificina.
Em termos artísticos, "Holy Terror" traz-nos de volta o contraste preto/branco austero que ajuda a definir o estilo de Miller, tão maravilhosmente característico em Sin City.

Mas esta também é uma obra que começa a suscitar algumas vozes críticas. Há quem refira que Miller revela, sem dó nem piedade, fortes traços de um certo anti-islamismo manifesto. Nos EUA, há quem o acuse de promover, com esta obra, um perigoso sentimento anti-Islão, podendo mesmo levar a que alarmantes ódios e traumas se reacendam.
Não sendo a primeira vez que a luta de um herói é travada contra figuras históricas reais conotadas com o Mal (ver Captain America #1, nos anos 30, que luta contra Hitler e o seu agente demoníaco, Caveira Vermelha), uma simplista abordagem de Holy Terror poderá levar a erradas interpretações e confusões acerca da relação Islão / Extremismo Islâmico.
Já em 300, os persas (antepassados históricos de muitas das atuais nações islâmicas) eram retratados como bárbaros e desumanos em contraste com os destemidos espartanos, representantes de um ocidente pleno de justiça, equilíbrio e tolerância...
Miller confessou que, de início, esta seria uma nova história de Batman mas que decidiu criar algo de novo. O "Cavaleiro das Trevas" deu lugar, nesta cruzada, a uma nova personagem, "The Fixer".

Polémico ou não, felicitemo-nos com esta obra e o regresso de Frank Miller.

domingo, 18 de setembro de 2011

o caruncho da madeira

Não sendo a primeira vez que me pronuncio a respeito do Senhor Formiga, considero que se torna uma vez mais pertinente reflectir acerca dos problemas que recentemente inundaram (e chocaram) a opinião pública cá do burgo.
Chocado ou não, nada me surpreende. Este Sr. Formiga é uma autêntica "térmite" que usou e abusou do poder que tinha para gerir fundos. A sua gestão danosa (que vem agora à tona de água) fez com que a madeira fosse abrindo buracos atrás de buracos até que apodrecesse por completo.
Nada me surpreende pois o isolamento da Madeira adivinhava-se como forma de fugir à prestação de contas: o Atlântico estendia-se nesta Madeira Carunchosa como uma capa de flores que compunham tão engalanado ramalhete perfumado. Afinal de contas, e feitas as contas com respectivas provas dos nove, o Jardim que se pensava que perfumava os meandros da Atlântida não é mais que um resquício de madeira apodrecida por uma térmite (ou bicho da Madeira) que por lá criou as suas hordas e se alimentou, durante cerca de 34 anos, daquilo que tinha e daquilo que não tinha.

A Térmite da nossa querida Madeira Emburacada sempre manifestou o ódio ao socialismo e aos sucessivos governos PS. Talvez nos tempos de Guterres conseguiu levar, amiúde, a sua vontade avante. Mas nesses tempos gastávamos pois pensávamos que do céu até caía algo mais que a chuva...
Os constantes ataques aos socialistas, maçons e republicanistas de meia-tijela dominaram o léxico desta personalidade desde os alvores do seu governo quase do tipo feudalizante que lhe aprazou desde a implantação definitiva da democracia em 1976. Mas este Senhor Formiga, de tão alérgico ao socialismo que se afirmava, é talvez "mais papista que o Papa": para uma região autónoma social democrata, não há actividade económica que não careça de fomento, clientelismo e palmadinha nas costas por parte da administração regional. As demais formiguinhas deste tronco emburacado vivem à sombra do ferrão protector da Formiga Raínha-Rei-Imperador do senhor Formiga...

Brevemente, haverá uma eleição regional. O Senhor Formiga, que promete há anos a sua última magistratura lá no tronco, será novamente eleito. Pois as demais formiguinhas do tronquinho esburacado pela térmite têm medo de ver a muralha do feudo desabar em pleno alto mar.

domingo, 11 de setembro de 2011

o início do século XXI

Há dez anos atrás comecei a dar aulas.
Estava numa escola nos arredores de Lisboa.
Durante a hora do almoço, pelas 14.00, sou surpreendido por aquelas imagens que hoje definem os novos tempos em que vivemos.
Confesso que, apanhado de surpresa pelas imagens que a televisão nos fazia chegar, ainda pensei tratar-se de algum novo filme-catástrofe vindo de Hollywood.
Mas não. As imagens eram reais. Espetacularmente macabras e violentas. 
Como qualquer pessoa, todas as demais conversas eram secundárias face ao que se passava em Nova Iorque.
Recordo que me passou pela cabeça o possível deflagrar de uma nova guerra mundial. O século XXI tinha finalmente chegado. Para a América, o "papão comunista devorador de criancinhas" daria lugar a um real monstro... "terrorista".
Sobrevivemos, desde aí, no medo...


sábado, 10 de setembro de 2011

Boas novas da 9ª arte nacional

E como tudo em Portugal não é obrigatoriamente mau, este post é sobre algo que me deixa muito feliz.
Comprei há dias o livro "As incríveis aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy", da autoria do português Filipe Melo.
O interessante neste álbum é que se vem a provar que a BD nacional está viva e, após ficar a saber que a obra terá edição no mercado internacional através de uma das mais poderosas e importantes chancelas do género, a Dark Horse Comics  ("Hell Boy", "300", "Flash Gordon", entre outras obras e nomes), todo um novo mundo se abre (felizmente) para que novos autores comecem a surgir por cá.
Comprei já a 3ª edição e é de louvar o facto de que esta obra conter um prefácio de John Landis (para quem não sabe, é um dos mais reconhecidos realizadores do género de terror/fantástico das últimas décadas. É da sua responsabilidade a realização do videoclip "Thriller").
E este prefácio não é apenas uma manobra de puro vaidosismo à portuguesa. Faz todo o sentido, como irei explicar.

"As incríveis aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy" é o álbum de comics português mais americano alguma vez editado. E não digo isto com malvadez.
Filipe Melo assume as suas (boas) influências e tenta transportar para o argumento todo um imaginário fantástico com claras alusões ao cinema de aventura/fantástico/terror dos anos 80 e, geograficamente, circunscreve a acção à Lisboa que todos nós conhecemos, descendo a um submundo de gárgulas, vampiros, zombies e demais vultos do sobrenatural... em Lisboa.
Dog Mendonça é um "Hell Boy" à portuguesa: agente que figuraria sem desdém no B.P.R.D de Mike Mignola, combatendo ameaças do "Oculto", pleno de humor e referências ao pulsar lusitano. Eurico é um simples entregador de pizzas. Temos ainda uma gárgula faladora que acompanha os heróis e Pazuul, uma "querida" menina que, afinal de contas, é um pouco excêntrica.
Juntos tentam descobrir a autoria de uma série de estranhos (e sombrios) raptos de crianças em Lisboa.
Descobriremos ainda que, afinal, o III Reich não terminou em 1945...

Para além de tudo isto, muitas são as boas memórias de filmes como "Jack Burton nas garras do Mandarim" de John Carpenter, "Regresso ao Futuro" de Robert Zemeckis, "Howard, the Duck" e "Lobisomem americano em Londres", de John Landis ". E por isso fará todo o sentido o prefácio que este último escreveu para a obra.

Aguardo o segundo volume destas incríveis aventuras... pelo que li, o título é "Apocalipse"!!!
Parabéns a Filipe Melo e ao desenhador Juan Cavia por este importante trabalho. Vale a pena ler... para quem gosta do género!

Esta é uma das imagens centrais de ""As incríveis aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy". Reparem na forma como Lisboa é desenhada: a ponte, os bairros típicos e o elevador da Bica. Sem faltar todas as particularidades da cidade. Juntemos isto a um imparável enredo de comédia, aventura e terror... 

O Coelhinho e o Calimero

Numa das recentes edições da revista Visão, é feita uma retrospectiva cronológica dos últimos doze meses políticos em Portugal.
Em Agosto de 2010, Passos Coelho, então líder da oposição, mostrava-se intransigente face à aprovação de um orçamento de estado (OE) para 2011 que consagrasse subidas de impostos. É sobejamente conhecida a tragicomédia em redor das negociações para o mesmo OE que envolveram PS e PSD. A Visão, na altura, afirmava que o líder laranja começava a trilhar o caminho para o poder.
Lá se aprovou o orçamento, contra ventos e marés...
Em Março de 2011, aquando da apresentação do PEC IV, o PSD decide não aprovar o dito plano. Se o PS não encontra consenso à direita, à esquerda BE e PCP cometem grave erro estratégico (as eleições de Junho seriam desastrosas para a esquerda portuguesa, com especial destaque para Louçã).
 Sócrates demite-se. Fugia-lhe das mãos o instrumento fundamental para poder continuar a governar. Os juros da dívida soberana da República Portuguesa atingiam máximos históricos diariamente.
No limiar do abismo, o PSD assumia-se como a única alternativa credível para tirar o país da encrusilhada, mostrando-se fiel depositário de uma receita que, segundo o seu líder, deveria ser aplicada, não pelo aumento da carga tributária, mas sim por uma lipoaspiração ao sector público e administração central.
Passos, sem nunca revelar a alquimia, comprometia-se com o eleitorado de forma peremptória.

Um ano depois...
Passos Coelho é líder de um executivo composto maioritariamente por ilustres anónimos. Ao contrário do PS, que nunca consegue um compromisso com uma esquerda mais preocupada em incendiar as ruas com a sua clássica toada, o PSD encontra a sua muleta no CDS-PP para obter uma maioria confortável. Paulo Portas chega então ao poder, negociando com Passos a atribuição dos ministérios e diversas funções.
O Governo Constitucional mais pequeno de sempre toma posse em Junho, a tempo da participação de Passos na cimeira do Eurogrupo desse mês.
Como todos os governos, este executivo teve um curtíssimo estado de graça. Portugal, não ainda recuperado das ambiguidades do executivo de Sócrates, reconhecia nesta juventude uma possível nova forma de enfrentar os problemas.
Com o memorando assinado com a "troika" como pano de fundo, rapidamente Passos Coelho vê esse estado de graça transformar-se em desconfiança e frustração por parte do eleitorado: o corte no 13º mês é visto como um autêntico saque à classe média. Mas, segundo o PSD, muito necessário. De seguida aumentam os transportes públicos. De seguida, aumento do IVA no gás e electricidade. Fica a sensação de que cada comunicação ao país feita por Vitor Gaspar (CEO das Finanças) é como uma autêntica praga bíblica.
Vem agora ao de cima o reconhecimento, por parte do governo da Madeira, que por lá o jardim de rosas atlânticas sufoca por entre os espinhos que florescem. Alberto João Jardim defende-se ao ataque. As suas declarações patéticas fazem-me lembrar Adolf Hitler em Abril de 1945 quando, em avançado estado de insanidade, continuava a fazer-se crer de que a guerra ainda iria ser ganha pelo III Reich...

Os dados acerca da economia nacional não são famosos: falências, falta de liquidez e acesso ao crédito, desemprego, regressão do consumo e uma sensação de desânimo total atravessa uma classe média cada vez mais nivelada por baixo. Apenas o crescimento da exportações atenuam um cenário de recessão há muito diagnosticado.
Muda o governo, a fórmula mantém-se.
Para isto, dá-me a sensação de que ser ministro das Finanças e da Administração é deveras fácil: basta ter cara de pau e aumentar impostos de forma a aumentar receita. Se a despesa deveria ser a principal forma de atacar o défice, Passos cria a sensação de que a dinâmica do seu executivo ruma em sentido contrário.
Acredito que tudo isto poderá ser necessário. Mas o país não vê uma luz ao fundo do túnel...
 Estão postas a nu todas as fragilidades que um país, enganado por discursos de ventura e bonança ao longo de 37 anos, revela agora.
O presidente da República mantém-se inactivo. Aquilo que prometera (uma magistratura atenta e activa) é agora justificada por já não ter os socialistas em S.Bento, mas sim os da mesma cor. Cavaco, que é o responsável pela total desindustrialização e abandono de terras em Portugal, fala da produção nacional e da sua urgência em se restabelecer. A diferença é que, entre 1985 e 1995, choviam fundos estruturais vindos de Bruxelas. Hoje em dia, de Bruxelas, só vem confusão e falta de liderança.

A crise da zona euro explica-se pelo simples facto da UE não existir mais. E se alguma vez existiu...
O euro está condenado e apenas vai sobrevivendo devido a cuidados paliativos por parte de uma Alemanha e de uma França que beneficiam (e muito) com uma moeda igual à dos países por si dominados onde entram livremente com aquilo que produzem.
 Como li algures, o euro tem duas versões: tal como o dólar canadiano e o dólar americano, o euro do norte da Europa distingue-se do euro do sul da Europa. Falta liderança. Falta  Europa.
O que temos é um directório franco-germânico que se coloca acima da Comissão Europeia, do Parlamento eleito por sufrágio europeu alargado e demais instituições que prestam a Paris e a Berlim uma vassalagem quase feudal.
Será a Grécia o elo mais fraco. Depois Portugal e a Irlanda. Quando se chegar à Itália...

Por falar em acto de vassalagem: recentemente, Passos Coelho esteve reunido com a chanceler alemã. O insólito acontece quando o PM português agradece o apoio da Alemanha no plano de resgate financeiro por parte das instituições internacionais! Agradecer quando os especuladores alemães esfregam as mãos com os fabulosos dividendos que retiram do seu agiotismo extremista? 
Será que a Alemanha pediu desculpa à Europa pelas  duas guerras mundiais e pelo Holocausto?
Será que a Alemanha agradeceu os planos de ajuda para a reconversão da sua economia no segundo pós-guerra?
Será que a Alemanha se lembrou de reconhecer o papel que a Europa teve na sua reunificação?
Não pense o meu caro amigo leitor de que lavro aqui um manifesto anti-germânico. De todo! Admiro a Alemanha em todos os seus aspectos. Mas senti vergonha de ter um PM que age diplomaticamente  debaixo da casquinha de ovo do Calimero...

Em relação ao PS, António José Seguro não me convence. Ganhas as eleições internas, o PS não reúne ainda união em torno do seu secretário-geral. Em fim-de-semana de Congresso, Francisco Assis continua a assombrar Seguro.
A atitude crítica do líder socialista às políticas do governo não convencem o eleitorado. O PS e a sua governação traumatizante ainda estão frescos na memória colectiva. O descalabro da sua governação não traz qualquer legitimidade ou moral para que possa criticar qualquer coisa que o PSD faça. Ainda...

Por isso, Portugal caminha para a desagregação. O desânimo domina a moral nacional. Não há esperança e os sinais quanto ao futuro são deveras negativos.


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

sledgehammer - 25 anos depois


Ontem ouvi esta música no carro. Apercebi-me que o álbum constava na minha estante. Recordei a sua grandeza.
Ao chegar a casa, peguei no cd e reparei que faz este ano 25 anos que foi lançado.
Talvez o grande impulso que possibilitou que Sledgehammer se tornasse um hit universal foi o seu teledisco.
Lembro-me, em 1986, do espanto que causou o clip, tendo inclusivé sido estreado em Portugal em pleno telejornal da RTP. E nesta altura o telejornal durava apenas cerca de meia-hora...
Obviamente que hoje em dia rimo-nos desta produção, que mais se assemelha a imberbes trabalhos de photoshop para iniciados ou a trabalhos de corte e colagem que eram realizados nas aulas de trabalhos manuais da minha infância. 
Mas, na altura, este foi um clip revolucionário. Ombreou com "Thriller"(surgido em 1983), embora numa diferente linha estética menos cinematográfica; com maior animação.
O video, realizado por Stephen R. Johnson, venceu no ano seguinte sete (7) prémios da MTV, palmarés único que ainda detém nos dias de hoje, sendo também o video que mais vezes foi exibido pelo canal de música americano. Nem o clássico video de Jackson, realizado por John Landis, se conseguiu tais façanhas! 

Sledgehammer possibilitou a abertura de um novo campo em termos de simbiose música/imagem.
Recordo-o aqui. 

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

só neste país...

Como canta o Sérgio Godinho... só neste país!
A recente onda de pseudo-patriotismo bacoco e exacerbado, consequente das constantes descidas no rating de Portugal pela agência de notação Moody's, levou-me a um estado de incredulidade absurda!
Parece que o Sebastianismo e as Santinhas do Scolari continuam a dominar o nosso triste fado.
Os portugueses voltam a assumir-se como coitadinhos e Kalimeros desprezados por este mundo (e o outro), quando os mesmos portugueses são os grandes responsáveis pelo facto de, neste momento, o país não ter qualquer crédito no exterior, sendo apelidado como lixo pelas mesmas agências.
É um país onde ninguém se entende, onde as grandes (e necessárias) reformas tardam, não passando de buraquinhos tapados com cuspo, onde a justiça não existe (e não funciona), onde a corrupção (que todos criticam e reprovam) começa nas filas do metro quando alguém consegue, à revelia, passar à frente dos demais e extende-se a exames na Escola Superior de Estudos Judiciários onde "futuros magistrados", que deveriam representar o bastião da ética e da legalidade, são apanhados a copiar...
O "fadinho da desgraçadinha" de Portugal faz-me lembrar o aluno que nunca estudou, nem nunca se esforçou. 
Portava-se mal nas aulas, não participava, não trabalhava em casa. Zero. Vai a exame. Tem má nota e reprova. Sente-se frustrado e indignado. Questiona o professor. Atribui as culpas ao professor e torna-se o professor "persona non grata ad eternum".
O boato correrá e será o professor, não tarda, o culpado pela reprovação do mesmo aluno.

 Esta parábola é uma boa forma de tentar entender o que passará pela cabeça deste povinho. As agências de rating apenas avaliam. Se os seus critérios são duvidosos, isso já será outra conversa!
Mas como estamos no Verão, o que interessa é que neste país o "festival" continua, ...esgotado por malta "que anda à Rasca"...

terça-feira, 5 de julho de 2011

há vida para além da europa? (3ª parte) - o euro ou o "eurro"?

A ideia de uma moeda única vem já dos tempos da 2ªGuerra Mundial.
Numa altura em que o conflito parecia caminhar para o seu epílogo,  representantes de vários países reuniram-se numa cidadezinha americana de Bretton Woods (estado de New Hampshire) para decidir e regulamentar as relações económicas e estratégias financeiras mundiais após o conflito. A ideia permente e fundamental seria evitar um novo colapso financeiro e económico semelhante áquele que se viveu na Europa após 1919 e que se agravaria nos anos 30, favorecendo a ascensão de regimes nacionalistas e comunistas face ao descrédito que a ineficiência dos regimes liberais demonstrou.
A ideia de uma unidade monetária mundial veio da cabeça de John Maynard Keynes, o defensor/teórico do papel do Estado na Economia e na resolução de assimetrias sociais. Aquele mesmo que hoje em dia é acusado de todos os males face ao tsunami ultraliberal que varre os países e pólos económicos actuais.

O "Bancor" seria então uma ideia que cairia por ali. Apesar da proposta britânica, os EUA fizeram valer a força da sua divisa que passaria a garantir a estabilidade das outras moedas através da conversão no padrão-ouro. Esta seria uma das condições para a força de crescimento económico que se assistiu nos 30 anos que se seguiram ao fim da guerra. Para os EUA, o dólar como divisa-padrão alimentaria as estratégias económicas americanas. Garantida que está a segurança e estabilidade monetárias, todo um novo mundo de investimentos e novos mercados se abriria à América.

Só nos anos 70 do século XX é que este acordo monetário celebrado em Bretton Woods cairia em desgraça: os EUA não eram já a única grande força económica no mundo. A Europa aprofundava a sua estratégia comunitária. A Ásia fortalecia-se e a guerra do Vietname originou a delapidação das reservas federais norte-americanas. Richard Nixon suspende então a garantia de convertibilidade das divisas mundiais perante o dólar. Os EUA deixavam de ser o "porto de abrigo" das demais moedas mundiais. Para agravar tudo isto, os choques petrolíferos dos anos 70 trouxeram ao mundo uma nova e cruel realidade: o petróleo, base de crescimento das economias ocidentais, deixaria de ser uma matéria-prima vendida ao preço da chuva para começar a influir dramaticamente nas sucessivas crises inflacionistas que se verificaram desde então.
Findo o sistema monetário de Bretton Woods, as moedas mundiais passariam a obedecer (valorizando-se e desvalorizando-se) a um novo sistema de taxas de conversão flexível.

Desde então que a volatilidade da confiança nas moedas é uma realidade crua e dura. A Europa teve de repensar a sua estratégia de forma a consolidar o seu programa cooperativo.
A visão keynesiana entrava também numa espiral crítica: subsídios estatais, garantias de plena emprego e gastos públicos com empresas, obras e demais obrigações vieram demonstrar que os estados deveriam olhar de forma mais racional e fria para aquilo que se apelidou na altura de Estado-Providência.
Os anos 80 ficaram marcados pela reconversão das políticas públicas num género de retorno à economia liberal do século XIX: economistas, como Milton Friedman, defenderam a diminuição do peso estatal na economia. Privatizar, liberalizar, globalizar e premiar a livre-iniciativa seria prenúncio de crescimento económico de forma a recuperar do abalo gerado pelas crises dos anos 70.

Os anos 80 na Europa ficariam marcados, então, pela reorientação e reconversão das economias. O pleno emprego, pilar fundamental do estado social que imperava na Europa desde finais da década de 40, foi entrando em negação. A abertura das linhas de comércio fortaleceu outras áreas, fazendo-as desenvolverem-se fortemente. Acordos financeiros, alfandegários e económicos teletransportaram fábricas do ocidente para regiões anteriormente consideradas periféricas onde as mais-valias concorrenciais de produção ofereciam maior lucro. A desindustrialização da Europa marcou a crescente terciarização da populaçãodo Velho Continente!

Perante as instabilidades económico-financeiras, a Europa encontrava-se em novo dilema: era necessário garantir a paz política. Mas para isso havia que garantir a paz económica através da cooperação entre os países da CEE.
O monetarismo e o fantasma das crises financeiras dos anos 70 levaram a que se aprofundasse a cooperação económica europeia através da cooperação financeira: uma moeda comum seria vista como forma de uma Europa se pronunciar a uma só voz perante as flutuações monetárias que marcaram o mundo desde os anos 70. Primeiro o ECU, depois o EURO.

Para além da força de uma moeda única que encontraria credor na força de uma economia dinâmica, a moeda única europeia seria, a partir de 2002, o principal sinal daquilo que os pais fundadores da Europa Comunitária pensaram: integração económico-financeira trará integração política. A Europa teria de se impor num mundo pelos seus traços civilizacionais. A referência nas notas a movimentos artísticos, desde o período românico, afirmava este modelo civilizacional e cultural da Europa identificada em cada um dos países. As portas seriam a metáfora de uma Europa sem fronteiras em que tudo dali para a frente se apresentaria sem limites...
O EURO era o triunfo de cerca de meio século de aprofundamento do projecto europeu. A Europa deixava de ser o centro do planisfério. 
Hoje a Europa não concorre sozinha. Tem outros pólos que se assumem no centro nevrálgico daquele espectro da globalização.
Os dirigentes europeus acharam que cada um dos países, por si só, não seria capaz de, sozinho, se assumir no mundo. O EURO era o tal sinal de uma Europa verdadeiramente comunitária.

Hoje, e quase uma década após a entrada em circulação da moeda única europeia, assistimos a um enorme ataque especulativo por parte das agências de rating americanas ao EURO. Será uma guerra financeira tendo em vista o fortalecimento da divisa americana? Será um ataque especulativo das instituições da alta finança... os "célebres mercados"?

O EURO existe por todas estas razões. E o EURO deveria garantir a sua força numa economia verdadeiramente cooperativa e dinâmica.
Portugal não percebeu o que era o EURO. Se a integração europeia teve, para Portugal, as suas deficiências, a entrada no EURO levou o país ao tapete. De vez.
Os fundos estruturais que chegavam da Europa esgotaram-se... ou evaporaram-se, não havendo rigoroso conhecimento onde páram. Construiram-se obras de regime e o país ambicionou um modelo de consumo enganador. A nossa economia foi dilacerada e, a pouco e pouco, os alertas foram sendo dados: se um país não dá garantias de produção e dinamismo numa economia globalizada, não gera riqueza. Se não gera riqueza, terá de ir lá fora endividar-se. Se o país não consegue pagar as suas dívidas, o crédito torna-se mais difícil. E é isto o que acontece.
Se antigamente a prática da "quebra da moeda" era recurso inevitável, a moeda única tem, inversamente, um largo problema. Se, estando num sistema económico com outros países muito mais dinâmicos, não demonstra competitividade, Portugal arrisca-se a ser o joio na seara europeia. Pois não gera confiança pela sua economia.

O EURO arrisca-se a não cumprir uma década em circulação. E aqui começa o fim do projecto europeu: se se fala da inexistência de um espírito federalista em termos políticos, em termos económicos faltará ainda o espírito solidário que una países ricos e países pobres na Europa. E foi a solidariedade e cooperação que geraram no segundo pós-guerra a fundação daquilo que iria a ser o projecto europeu. 
Actualmente, Alemanha e França olham para os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) como entraves aos seus interesses. Por mais planos de reestruturação das dívidas e empréstimos do FMI/BCE/UE, o mal está lançado. Não há solidariedade na Europa. Mas os portugueses tendem a ver sempre o seu lado, assumindo-se como coitadinhos por todos os males que sob si recaíram. Os filandeses perguntam: "Como é possível que um país, que teve duas intervenções do FMI em 30 anos, tenha agora de recorrer à terceira assistência?".
Não acredito na Europa actualmente. É um projecto falido e sinto que Bruxelas, como centro decisório, se afasta cada vez mais da cidadania europeia...infelizmente.